A minha vida e a vida dos outros

29 May

Uma definição sucinta para a minha crise, que na verdade já foi superada há alguns meses. Eu me irritava com a vida perfeita no Facebook. Com a dos outros – afinal, é isso que tem lá, um monte de coisas sobre a vida dos outros e uns highlights da nossa. A vida dos outros é perfeita, a minha não. Isso me irritava profundamente.

Os outros estavam sempre comendo coisas gostosas, tomando drinks bonitos, acordando tarde, fazendo festas em piscinas, divertindo-se em lugares cheios de gente linda e descolada. Muitas vezes, os outros estavam fazendo isso enquanto eu trabalhava. Ou enquanto eu fazia faxina. Ou enquanto eu ia ao supermercado, pagava contas, me preocupava com a rotina. Ou simplesmente enquanto eu dormia – afinal, pra dar conta de trabalho, faxina, supermercado e tudo mais, eu preciso dormir. A impressão que eu tinha é que enquanto eu fazia todas essas coisas mundanas havia um mundo inteiro de luxo, glamour, riqueza e felicidade. Este mundo feliz estava distante de mim. Frustração define.

Num dia qualquer de trabalho, minha chefe falou que eu sou muito importante para a empresa. Que minha presença é indispensável e que eu sou muito eficiente. Neste mesmo dia, quando o marido veio me buscar, trouxe um presente surpresa. Mera coincidência. Não era nenhum dia especial, não era meu aniversário, era apenas um dia comum. Não tomei drinks bonitos, não tinha nenhuma festa com jeito de revista Caras. E nem precisava muito mais do que isso – um elogio e um mimo – para me fazer entender que a minha vida é ótima. Mesmo que eu precise acordar cedo todos os dias, chova ou faça sol; mesmo que a louça continue acumulando na pia, mesmo que eu precise pagar contas e não faça viagens incríveis, mesmo que eu não seja convidada para as festas mais descoladas da cidade. Mesmo que eu não viva num clima de férias eternas, sem trabalho, sem responsabilidade alguma. Eu entendi que meu papel no mundo não é ser feliz à toa, muito menos ficar mostrando para os outros uma vida de mentira. Meu papel no mundo é cuidar da minha vida, correr atrás do prejuízo e encontrar felicidade nas pequenas coisas.

E aí, pra acabar de vez com a vida “perfeita” dos outros – e a irritação que isso me causava-  eu passei a usar o botão “unsubscribe” do Facebook. Como diria o Chico Pinheiro: é vida que segue.

p.s. a imagem do post veio daqui.

p.s. 2:e por falar em Facebook, curte aí a página da Casa dos Trinta.

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Sentir saudade é uma constante

28 May

Você vai dizer que sente saudades de momentos, pessoas, cenários, perfumes, músicas, sensações e uma porção de coisas que viveu e não voltam mais. Eu também sinto. Saudades dos horários de almoço esticada no gramado, pedreiro style, falando bobagens com os amigos. Na época em que os colegas de trabalho viravam amigos. Saudades de noitadas, baladas, bebedeiras, da sensação de chegar sozinha no bar sabendo que ia encontrar alguém conhecido. Na época em que eu ia a bares. Saudade um pouco de quem eu era, mas muito mais de quem as pessoas eram, de como os lugares eram. Saudades de tomar quentão na Osório, e mesmo que eu continue fazendo isso todos os anos, nunca mais será igual. Saudades do apartamento de piso clarinho e, em breve, saudades do apartamento de janelas bem grandes.

Você viaja pra longe pra passar uns dias. Chega o final da viagem e você está com saudades de casa; da sua cama, do seu banheiro, do seu sofá e do seu chuveiro. Então volta e poucos dias depois, vendo as fotos da viagem, sente saudades de… viajar. Eu sou assim, aposto que você também.

Sinto saudades dos amigos  - e penso quando é que ficou normal encontrar essas pessoas na rua, dizer um oi-tudo-bem mais clichê impossível, seguir o caminho e continuar vivendo. Viver sem eles parecia impossível e sinto saudades desse bem querer imensurável, parecia que nunca nada ia mudar.

Sentir saudade é uma constante. Cada vez que escurece já temos uma porção de coisas novas para sentir saudades. Toda vez que amanhece a gente reza pra que o dia seja bom, pra que coisas boas aconteçam, sem pensar que cada amanhecer e cada coisa boa também trazem saudades.

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Padecer num paraíso

22 May

Uma coisa boa que me aconteceu aos 34: as pessoas pararam de me cobrar a maternidade. Para isso precisei fazer alguns anúncios polêmicos – especialmente na família, mas nada tão chocante assim.

Mas o mundo, esse grande comercial de margarina sem gordura trans… o mundo segue dando suas amostras de que a vida é mais completa quando se tem filhos, reforçando a ideia de que o amor muda de forma depois da maternidade. O que dizer? Eu sou filha. Se minha mãe pensasse como eu…

Eu não tenho filhos, mas posso garantir que minha vida é bem completa e cheia de outros amores. O amor já mudou de forma inúmeras vezes ao longo da caminhada, também.

Essa dedicação de que tanto se fala, bem, eu a tenho pelo meu trabalho, pela minha casa, minha vida a dois, minha vida de Paula. Ser mãe deve ser transformador – mas não posso menosprezar a transformação de outros aprendizados que tive, como a perda do meu pai quando eu era muito jovem. Tudo transforma a gente e a única coisa que discordo em todos os discursos é de que isso ou aquilo é mais forte, mais importante, mais enriquecedor. Enriquecedor é sair da cama todos os dias com algum objetivo – seja trabalhar, seja criar um filho. Eu não criaria filhos apenas para provar do doce e do amargo.

Acredito nas escolhas, e hoje prezo pela liberdade que a vida sem filhos me dá. Esta é a minha escolha. Esta liberdade me permite amar outras pessoas de forma incondicional. Tudo isso é pra dizer que eu gostei deste texto que tem no link aí, que vi no blog da Freda. É daqueles que “bate uma real” sobre maternidade. Que mostra que a vida não é cor de rosa. Com ou sem filhos – essa parte a gente escolhe, o resto é destino, trajetória e reação.

Anti-post de Dia das Mães

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Preocupada.com.br

16 May

Invejo as pessoas que não se preocupam. Sem hipocrisia, não se trata de inveja branca. Apenas invejo e penso que se pudesse mudar uma única coisa em mim, só uma, entre tantas que preciso consertar, mudaria isso: queria não me preocupar.

Não me preocupar com horários – a ponto de deixar dois despertadores na cabeceira da cama, mesmo sabendo que a ansiedade me fará acordar antes de ambos tocarem. Não me preocupar com coisas banais como será que tem pão pro café da manhã?, nem com coisas sérias como trabalho, prazos e entregas. Não me preocupar com coisas banais como será que vai fazer sol para secar minhas roupas?, nem com coisas sérias como dinheiro, carreira, contas e futuro.

As pessoas que não se preocupam também pensam em futuro, oras bolas. Mas pensam diferente de mim. Para elas o futuro é uma caixinha de surpresas (boas), para mim o futuro é uma enorme página em branco. Cabe a mim escrevê-las e o processo começa a cada instante.

Por outro lado, meu conforto é saber que a minha preocupação pode até me causar insônia, cansaço; mas também é a grande responsável por aquelas pequenas coisas cotidianas que sempre dão certo no final.

A última vez que vi você

27 Mar

A barba estava por fazer. Você usava a jaqueta preta, aquela de sempre. O perfume de sempre, aquele que é só seu. Vou te contar um segredo: às vezes na rua sinto aquele mesmo cheiro e, mesmo sem querer, preciso olhar em volta pra ter a certeza de que não é você.

A última vez que vi você teve um pouco de tudo. Briga, beijo, abraço, pipoca e cobertor, vinho, lágrimas, promessas e tempestade. Você me abraçou forte e falou que era real, que era pra sempre, que nunca tinha sido tão intenso. Dormimos assim, com abraço forte, cobertor. Você dormiu; eu mal fechei os olhos, fiquei a noite toda pensando se você era de verdade e quanto tempo ia demorar pra gente se encontrar de novo.

O dia seguinte foi um dos mais cinzentos de que tenho memória. Você entrou no carro, fechou a porta, demorou um pouco para ligar o motor. Olhava pra mim pelo vidro, enquanto eu tentava conter o impulso de te dizer pra jogar tudo pra cima, rasgar as passagens e viver uma história comigo. Mas sua história já estava agendada, tinha hora pra chegar e portão pra embarcar. Não tive coragem de ir até o aeroporto – qualquer despedida seria só uma forma igualmente dolorosa de te ver partir. Sua história já tinha destino. O seu destino era diferente do meu.

Duas semanas depois, uma encomenda, uma pequena caixa. Dentro dela, três folhas tamanho A4, com tudo escrito em fonte arial tamanho 12. As mesmas promessas – eu ia te ver, pra encurtar esse tempo tão longo, mas você também tinha data para voltar.

O inverno passou.

A última vez que vi você às vezes  sumia do meu pensamento. Solidão é um lance complicado e começou a ficar difícil esperar tendo só aquelas três folhas A4 e um monte de lembranças. Não resisti.

A primavera passou.

De vez em quando, gostava de pensar que você ia voltar. Te imaginava do mesmo jeito: barba por fazer, jaqueta preta e aquele sorriso que você sempre guardava pra mim. Solidão deixou de ser um lance complicado.

O verão passou.

Mais um amor acabou. A última vez que vi você. Há quase um ano. A carta, aquela de três páginas, ficava na gaveta logo ao lado da cama. Antes de dormir, eu lia. Sempre que lembrava. “Será que estou esquecendo?”

O outono chegou.

As lembranças antes vinham tão fáceis, deslizavam pela memória, me fazendo sorrir. Agora não mais. Precisava me esforçar para sentir alguma coisa. “Estou esquecendo”.

O inverno chegou.

Solidão é um lance complicado. Mesmo que me esforçasse, não conseguia mais lembrar dos detalhes. Já não sabia mais que dia tinha sido, que horas você tinha embarcado, que filme a gente tinha assistido e o quanto eu tinha te amado.

Às vezes – até hoje – quando estou andando na rua sinto o seu perfume. Tantos anos se passaram. Você nem deve usar o mesmo. Mas eu ainda olho pra ver se é você.

45 segundos

15 Mar

Lembranças. Taí algo que ninguém pode arrancar de mim, ou de você. Você pode ficar sem um tostão na vida, perder tudo o que tem num incêndio, optar por uma vida solitária e desapegada no alto de uma montanha, não importa: a sua vida vai junto com você, onde quer que esteja.

Dias atrás vi o seu carro dentro do estacionamento e havia um cachecol, nitidamente de mulher, jogado no banco traseiro. Imediatamente lembrei da primeira vez em que vi você: fazia um frio desgraçado de bom, eu sentia a ponta do nariz congelando e você sorria pra mim pelo canto dos lábios enquanto virava uma dose de conhaque.

- Vamos entrar? Está frio aqui fora.

- Não sei. Eu gosto dessa vista. Me faz sentir como se não fosse daqui. Que rua é aquela ali embaixo mesmo?

Você colocou a mão no bolso e continuou caminhando para a porta de vidro. Maldito sorriso no canto dos lábios. As pessoas do lado de dentro continuavam apostando moedas e carteiras de cigarro num jogo infinito de baralho. Lembranças: há não muito tempo atrás, achei um valete de copas no fundo da minha bolsa verde-exército.

O jogo já havia acabado, cartas na mesa, enquanto você enchia meu copo de vinho e o seu de conhaque. O termômetro do outro lado da rua marcava dois graus.

- Eu te acompanho.

Acendi um cigarro. Você sabe, adoro ver a nuvem de fumaça; especialmente no inverno, quando se confunde com a neblina. Dava pra ouvir os tacos do meu sapato batendo nas pedrinhas da calçada, fazendo eco até a outra quadra, enquanto você assobiava Lips Like Sugar.

- É aqui.

Lembranças: você ajeitou a gola do meu casaco, me puxando pra perto, e beijou-me a testa:

- Bonito cachecol.

Lembranças. Taí algo que ninguém pode arrancar de mim, ou de você.

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Texto de fevereiro de 2006. Tem coisas que o tempo não muda.

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Casa dos Trinta 6 anos depois: no Facebook.

O último beijo

13 Mar

Um beijo não substitui o outro. O último beijo não apaga o primeiro. E o próximo também não vai apagar aquele último. O último beijo é inconsciente: você não sabe que ele está acontecendo. Se soubesse teria aproveitado mais. Feito diferente. O último beijo teria sido mais longo, o abraço teria sido mais longo, aquele mísero instante que antecede o beijo teria sido mais longo. Pra valer cada lágrima que veio depois, cada noite em claro, cada palavra contida.

Eu acredito que a dor do coração partido é, em boa parte, a dor do último beijo. Do gosto e do cheiro que você não vai mais sentir. Entre tantas coisas perdidas quando alguém vai embora, o último beijo é o que dói mais. Afinal, quem sabe que ele é o último? Quando o carro dobrou a esquina, quando o avião decolou, quando a porta fechou. Era o último beijo e ninguém te avisou…


p.s. caros e fieis leitores… tem uma página da Casa dos Trinta no Facebook pra você curtir! Aqui, ó.

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