Preocupada.com.br

16 May

Invejo as pessoas que não se preocupam. Sem hipocrisia, não se trata de inveja branca. Apenas invejo e penso que se pudesse mudar uma única coisa em mim, só uma, entre tantas que preciso consertar, mudaria isso: queria não me preocupar.

Não me preocupar com horários – a ponto de deixar dois despertadores na cabeceira da cama, mesmo sabendo que a ansiedade me fará acordar antes de ambos tocarem. Não me preocupar com coisas banais como será que tem pão pro café da manhã?, nem com coisas sérias como trabalho, prazos e entregas. Não me preocupar com coisas banais como será que vai fazer sol para secar minhas roupas?, nem com coisas sérias como dinheiro, carreira, contas e futuro.

As pessoas que não se preocupam também pensam em futuro, oras bolas. Mas pensam diferente de mim. Para elas o futuro é uma caixinha de surpresas (boas), para mim o futuro é uma enorme página em branco. Cabe a mim escrevê-las e o processo começa a cada instante.

Por outro lado, meu conforto é saber que a minha preocupação pode até me causar insônia, cansaço; mas também é a grande responsável por aquelas pequenas coisas cotidianas que sempre dão certo no final.

A última vez que vi você

27 Mar

A barba estava por fazer. Você usava a jaqueta preta, aquela de sempre. O perfume de sempre, aquele que é só seu. Vou te contar um segredo: às vezes na rua sinto aquele mesmo cheiro e, mesmo sem querer, preciso olhar em volta pra ter a certeza de que não é você.

A última vez que vi você teve um pouco de tudo. Briga, beijo, abraço, pipoca e cobertor, vinho, lágrimas, promessas e tempestade. Você me abraçou forte e falou que era real, que era pra sempre, que nunca tinha sido tão intenso. Dormimos assim, com abraço forte, cobertor. Você dormiu; eu mal fechei os olhos, fiquei a noite toda pensando se você era de verdade e quanto tempo ia demorar pra gente se encontrar de novo.

O dia seguinte foi um dos mais cinzentos de que tenho memória. Você entrou no carro, fechou a porta, demorou um pouco para ligar o motor. Olhava pra mim pelo vidro, enquanto eu tentava conter o impulso de te dizer pra jogar tudo pra cima, rasgar as passagens e viver uma história comigo. Mas sua história já estava agendada, tinha hora pra chegar e portão pra embarcar. Não tive coragem de ir até o aeroporto – qualquer despedida seria só uma forma igualmente dolorosa de te ver partir. Sua história já tinha destino. O seu destino era diferente do meu.

Duas semanas depois, uma encomenda, uma pequena caixa. Dentro dela, três folhas tamanho A4, com tudo escrito em fonte arial tamanho 12. As mesmas promessas – eu ia te ver, pra encurtar esse tempo tão longo, mas você também tinha data para voltar.

O inverno passou.

A última vez que vi você às vezes  sumia do meu pensamento. Solidão é um lance complicado e começou a ficar difícil esperar tendo só aquelas três folhas A4 e um monte de lembranças. Não resisti.

A primavera passou.

De vez em quando, gostava de pensar que você ia voltar. Te imaginava do mesmo jeito: barba por fazer, jaqueta preta e aquele sorriso que você sempre guardava pra mim. Solidão deixou de ser um lance complicado.

O verão passou.

Mais um amor acabou. A última vez que vi você. Há quase um ano. A carta, aquela de três páginas, ficava na gaveta logo ao lado da cama. Antes de dormir, eu lia. Sempre que lembrava. “Será que estou esquecendo?”

O outono chegou.

As lembranças antes vinham tão fáceis, deslizavam pela memória, me fazendo sorrir. Agora não mais. Precisava me esforçar para sentir alguma coisa. “Estou esquecendo”.

O inverno chegou.

Solidão é um lance complicado. Mesmo que me esforçasse, não conseguia mais lembrar dos detalhes. Já não sabia mais que dia tinha sido, que horas você tinha embarcado, que filme a gente tinha assistido e o quanto eu tinha te amado.

Às vezes – até hoje – quando estou andando na rua sinto o seu perfume. Tantos anos se passaram. Você nem deve usar o mesmo. Mas eu ainda olho pra ver se é você.

45 segundos

15 Mar

Lembranças. Taí algo que ninguém pode arrancar de mim, ou de você. Você pode ficar sem um tostão na vida, perder tudo o que tem num incêndio, optar por uma vida solitária e desapegada no alto de uma montanha, não importa: a sua vida vai junto com você, onde quer que esteja.

Dias atrás vi o seu carro dentro do estacionamento e havia um cachecol, nitidamente de mulher, jogado no banco traseiro. Imediatamente lembrei da primeira vez em que vi você: fazia um frio desgraçado de bom, eu sentia a ponta do nariz congelando e você sorria pra mim pelo canto dos lábios enquanto virava uma dose de conhaque.

- Vamos entrar? Está frio aqui fora.

- Não sei. Eu gosto dessa vista. Me faz sentir como se não fosse daqui. Que rua é aquela ali embaixo mesmo?

Você colocou a mão no bolso e continuou caminhando para a porta de vidro. Maldito sorriso no canto dos lábios. As pessoas do lado de dentro continuavam apostando moedas e carteiras de cigarro num jogo infinito de baralho. Lembranças: há não muito tempo atrás, achei um valete de copas no fundo da minha bolsa verde-exército.

O jogo já havia acabado, cartas na mesa, enquanto você enchia meu copo de vinho e o seu de conhaque. O termômetro do outro lado da rua marcava dois graus.

- Eu te acompanho.

Acendi um cigarro. Você sabe, adoro ver a nuvem de fumaça; especialmente no inverno, quando se confunde com a neblina. Dava pra ouvir os tacos do meu sapato batendo nas pedrinhas da calçada, fazendo eco até a outra quadra, enquanto você assobiava Lips Like Sugar.

- É aqui.

Lembranças: você ajeitou a gola do meu casaco, me puxando pra perto, e beijou-me a testa:

- Bonito cachecol.

Lembranças. Taí algo que ninguém pode arrancar de mim, ou de você.

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Texto de fevereiro de 2006. Tem coisas que o tempo não muda.

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Casa dos Trinta 6 anos depois: no Facebook.

O último beijo

13 Mar

Um beijo não substitui o outro. O último beijo não apaga o primeiro. E o próximo também não vai apagar aquele último. O último beijo é inconsciente: você não sabe que ele está acontecendo. Se soubesse teria aproveitado mais. Feito diferente. O último beijo teria sido mais longo, o abraço teria sido mais longo, aquele mísero instante que antecede o beijo teria sido mais longo. Pra valer cada lágrima que veio depois, cada noite em claro, cada palavra contida.

Eu acredito que a dor do coração partido é, em boa parte, a dor do último beijo. Do gosto e do cheiro que você não vai mais sentir. Entre tantas coisas perdidas quando alguém vai embora, o último beijo é o que dói mais. Afinal, quem sabe que ele é o último? Quando o carro dobrou a esquina, quando o avião decolou, quando a porta fechou. Era o último beijo e ninguém te avisou…


p.s. caros e fieis leitores… tem uma página da Casa dos Trinta no Facebook pra você curtir! Aqui, ó.

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Quem nunca?

1 Mar

Ela acorda. Checa o celular. Não tem mensagem. Abre a janela. O dia lá fora é lindo. Liga a tevê. Liga o chuveiro. Checa o celular. Não tem mensagem.

Ele acorda. Abre os olhos. Fecha de novo. Que sono.

Ela desliga o chuveiro. Liga o computador. Não tem email. Não tem mensagem. Vai para a cozinha passar um café. Checa o celular. Liga o chuveiro.

Ele acorda. Abre os olhos. Num esforço sobre-humano, sai da cama. Vai pro banheiro. Liga o chuveiro.

Ela entra no chuveiro. Respira fundo. E chora. Só um pouco. Mas chora.

Ele entra no chuveiro. Toma banho. Que droga, esqueci a toalha na sala.

De frente para o espelho, ela tenta esconder o nariz vermelho e os olhos levemente inchados. Nunca mais choro no banho. Válido somente para hoje. Toalha na cabeça, vai para a cozinha. Enche a xícara de café. O dia lá fora é lindo. Grande coisa.  Esse café ficou fraco. Chora.

Ele sai do chuveiro pingando e molha todo o caminho até a sala. Respira fundo. O dia lá fora é lindo. Pensa: pão com margarina ou com geléia?

Ela termina a xícara de café com o celular na mão. Nenhuma mensagem. Volta para o computador. Nenhum email. Vou me atrasar. Maquiagem de emergência. Seca o cabelo. Batom, rímel, base. Escova, chapinha. De quê adianta se nenhuma roupa tá me servindo?

Ele troca de roupa, pega a carteira, o celular, a chave de casa e sai.

Ela chega atrasada. E com cara de velório.

Ele tem um dia de trabalho cheio.

Ela checa o celular. Nenhuma mensagem. Nada no email. Nada no Facebook. Será que ele me bloqueou?

Na hora do almoço, ele não resiste e pede um choppinho. Só pra relaxar.

Ela chama todas as amigas para almoçar. Ele está há 3 dias sem mandar nenhuma mensagem. Acho que acabou. Acho que ele mentiu. Ele disse que eu sou linda. Que eu sou demais. Mas nunca mais me procurou. Ela chora. A maquiagem borra. Ela precisa ir no banheiro consertar toda a maquiagem.

Ele pede mais um choppinho. Só pra relaxar.

Ela volta para o trabalho. Com cara de velório.

Ele tem um dia de trabalho cheio.

Ela chega em casa. Joga a bolsa no sofá. Tira os sapatos. Abre uma lata de leite condensado. Brigadeiro. Brigadeiro vai me deixar melhor.

Ele chega em casa. Abre uma cerveja. Uma cerveja vai me deixar melhor.

Uma panela de brigadeiro depois, ela chora.

Ele abre outra cerveja.

Ela tira o que sobrou da maquiagem. Coloca um pijama qualquer. Não vou jantar. Não tenho fome. Só de brigadeiro. Checa o celular. Nenhuma mensagem. Vai para a cama. Caixa de lenço de papel do lado do travesseiro. Ela chora.

Ele olha para o celular. O que será que ela está fazendo agora?

“Saudades. Posso te ligar?”

Fim.

Amores tortos

23 Feb

Amor: eu também achei que era aquele. Que, feito nos contos de fada, tinha tido a sorte de encontrar o primeiro que também era o último. Que era o definitivo, infinito e infinitivo. Não era. Também achei que era o segundo, o terceiro, o décimo nono. Não eram. Achei que o amor era aquele sofrimento, aquele vazio que ficava quando alguém ia embora. Que não havia maior prova de amor do que aquele sentimento me corroendo por dentro. Se doía, era amor. Não era.

Eu também achei, lá pelas tantas, que não existia. Que era uma invenção moderna, relacionada com filmes, com situações bonitas que só aconteciam na ficção. Eu também achei que nunca ia acontecer comigo. Igual você achou um dia: isso daí não é pra qualquer um, é pra poucos; encontrar a pessoa perfeita e ter certeza que é com ela que você vai ficar pra sempre. Achei que meu destino era ser pra sempre uma espectadora dos romances alheios. Não era.

Já confundi o amor com um monte de coisas: carência, saudade, vazio, dor. Chega uma hora que você já nem sabe se é amor ou se é só fome. Acontece. Eu também já achei que o amor era complicado. E por conta disso, lá se foram mais uns 14 não amores. Confundi o amor com confusão.

Já achei que o amor era azul, rosa, vermelho, se bobear achei que o amor era de alguma cor estranha como fúcsia ou cáqui. Não era. Eu também achei que era difícil, que falava outra língua. Achei que era só esperar a hora certa, já achei que o amor era casado, divorciado e enrolado. Não era.

Acreditei em todas as nuances do amor que não era amor. Pessoa certa na hora errada. Não é você, sou eu. Não quero te fazer sofrer. Achei que tudo isso era o amor chegando ou muito cedo ou muito tarde. Não era.

E, ao mesmo tempo, amei tanto. Amei torto, amei confuso, amei errado, amei de tantas cores e de tantos tamanhos, amei com tantos pesos e tantas medidas. Amei do jeito que deu, do jeito que eu sabia, do jeito que eu achava que era. Não era. Quer dizer, era. Mas não era o amor que tinha que ser. O amor que não confunde, não atrasa nem adianta. O amor bate à porta sim, se você não estiver, ele espera você chegar. O amor não é perfeito, e por isso mesmo eu não me canso de olhar pra ele.

4 anos, 7 meses e 24 dias. Não precisa comemorar essas coisas só em um determinado dia, né?

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Daqui até a eternidade…

16 Feb

O gancho vem daqui – amor tem de sobra, o que falta é gente qualificada pra receber. O que te qualifica pra receber? Aí depende. É subjetivo demais, emocional demais, inexplicável demais.

Na mesa ao lado, três casais jantavam juntos. A loira de cabelos nos ombros e voz estridente reclamava do namorado, na frente dele e de todos os amigos. Que ele chegou cedo demais para buscá-la. Que no outro dia, atrasou meia hora. Que aos domingos, dorme até o meio-dia. Que deuzolivre se ele acha que depois de casar vai continuar dormindo assim – já pensou?

Não. Não pensei. A única coisa que pensei foi “por quê raios vocês vão casar se ele é tão ruim assim?”. Ruim é ela, pensei em seguida, enquanto escolhia a sobremesa. Entre uma grosseria e outra, vem a pérola: “mais uma cerveja? Você não acha que tá bebendo demais?”. A loira, chata que só, alfinetava o noivo enquanto o garçom, plantado à beira da mesa, ostentava um sorriso pra lá de amarelo.

Discutir na frente dos outros é isso: sorriso amarelo. Desdenhar da pessoa “amada” na frente dos outros é péssimo – hipocrisia, aliás, chamar de “pessoa amada” alguém que você só destrata. O mundo tá cheio de gente querendo ter alguém pra tratar bem. É bom ficar atento.

Olhei, tentando disfarçar, enquanto eles discutiam quantas cervejas já tinham ido goela abaixo. O sorriso amarelo do garçom era compartilhado pelas outras pessoas que jantavam com eles.

Abre parênteses; mas não muito.

Minha vó sempre dizia que roupa suja se lava em casa. Do alto de sua caretice, tinha razão em muitas coisas; essa era uma delas. Foi casada com meu avô por 64 anos, nos últimos 10 ele esteve doente. Ficou cada vez mais doente, foi perdendo as forças, a fala, os movimentos, foi esquecendo de tudo. Até dela ele esqueceu. Mesmo assim ela nunca saiu dali. Quando perguntavam pra ela como ele estava, era enfática: “está ótimo. Está melhorando cada vez mais”. Uma mentira deslavada – meu vô tinha Alzheimer, só piorava, não sabia quem era ela e nunca ia ficar bom. Mas minha vó guardava essa parte ruim e difícil da vida a dois a sete chaves, dentro de casa.

Fecha parênteses.

Guardadas as devidas proporções, é nisso que eu acredito. Que as relações duradouras são aquelas em que os problemas são discutidos, divididos e resolvidos dentro de casa. Depois que a gente escolhe e é escolhida, tem que dividir muito mais do que a cama, uma garrafa de vinho e o tubo de pasta de dentes. Tem que dividir dias ruins, dias frios, dias cansativos, problemas. Tem que multiplicar paciência, tem que respirar fundo. Tem que ponderar. Mas não tem que contar nada disso pro mundo não. Não tem nada mais feio, deselegante e sorrisoamarelante do que um casal fazendo picuinha em público. Não importa se é o cara que zoa a namorada ou se é a namorada que enche a paciência: é uma bomba de efeito moral pra quem está perto.

Porque o amor, esse bichinho danado que a gente tanto quer pra vida, tem mesmo que ser regado, cultivado, pra durar pelo menos 64 anos. Não adianta amar no Facebook, botar foto com filtro tirada em Veneza, música romântica como legenda. Tem que ser de verdade, de carne e osso.  Tem que ter orgulho de quem ama. E ser motivo de orgulho também.

A velha história de deixar o lado bom pesar mais na balança, sabe? Porque daqui a 64 anos, quando você estiver doente numa cama, acredite: só tem uma pessoa no mundo que vai cuidar de você até o fim. Não serão seus pais, nem seus irmãos, nem seus filhos. Vai ser esse cara aí, que bebe muita cerveja, se atrasa sempre e só acorda depois do meio-dia.

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