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João e Maria. Quase uma poesia.

24 Jan

João amava Maria que não amava ninguém.

Então João passou a amar Ana também.

E Maria começou a amar João, enquanto Ana ainda não amava ninguém.

Ana se apaixonou por João depois de dois meses.

João já nem sabia se amava mais Ana ou Maria.

Maria conheceu Luis e ficou dividida.
Não sabia qual deles queria pra sua vida.

Ana, amando João, queria que ele lhe pedisse a mão.
Mas João, dividido entre Ana e Maria, já não sabia.

Naquela sexta-feira ensolarada, João foi trabalhar à pé. Na volta pra casa, um ônibus desgovernado subiu na calçada.  João acabou ali, com a perna quebrada.

Maria, desesperada, foi correndo pro hospital. Ana não pôde ir – era véspera de carnaval.

Na saída da emergência, Maria tomou um táxi. Meia hora depois, o táxi caiu na ribanceira e acabou com uma vida inteira.

Ao saber do ocorrido, João ficou deprimido. Chorou três dias e três noites sem parar.  Ana veio lhe falar. João descobriu que amava Maria. Mas ela já não existia.

Em resumo, a vida é muito curta pra não ficar com quem a gente ama. Fim.

joaoemaria

Imagem: We Heart It

 

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A má educação

23 Jan

Precisava pagar uma conta na lotérica. Tenho certo pavor de ter que “pagar contas” fisicamente – pra mim o bankline é uma das melhores coisas que a internet trouxe. Mas essa eu tinha que pagar na lotérica. Cheguei bem cedinho, antes do trabalho, fila pequena. Paguei a conta e a moça do guichê tinha que me dar R$ 1,40 de troco. Eu estava com um pouco de sono, um pouco de pressa, fui saindo da lotérica e já na porta lembrei: meu troco. Voltei para o guichê, olhei para a moça e falei: “ops, esqueci meu troco”. Ao que ela gentilmente (só que não) respondeu: “também, você saiu correndo” –  assim mesmo, de uma forma grosseira, muito mais que um mau humor matinal.

Eu não sei dos seus problemas. Se tinha algum motivo específico para ela me tratar daquele jeito – mas entendo que não. Não importa o tamanho do problema, eu não tinha nada a ver com ele. Aquela falta de educação acabou com a minha manhã e me deixou sentida: eu só queria meu troco.

Sou o tipo de pessoa que se magoa com o mau jeito dos outros. Se houve intenção ou se foi despropositado não me interessa: posso não ser a miss simpatia, mas tenho o mínimo de educação. Ser mal atendida em qualquer lugar, receber respostas tortas para coisas corriqueiras, gente que manda emails sem um “olá”: fico sentida, fico magoada.

A parte boa disso – sim, ela existe – é que algumas mágoas eu consegui superar ao longo dos anos. Ficava chateadíssima quando as pessoas me chamavam num chat, falavam o que queriam, faziam suas perguntas e desligavam sem dar tchau.  Ainda mais quando sabia que a pessoa não era lá muito ocupada, do tipo que o chefe liga e ela precisa sair correndo para atender. Hoje em dia dou o troco na mesma moeda: me dá na telha, eu fecho o chat e vou cuidar da vida.

Enfim. O fato é que a vida nos obriga a mudar. E nem sempre é pra melhor.

Este ano deu trabalho…

20 Dec

Quando pensei em fazer um balanço de 2012, só me vinha à cabeça uma coisa: “trabalhei”.

Trabalhei, gente, este ano trabalhei muito. E tô aqui, a um dia das férias, pensando como a gente julga mal este verbo: trabalhar. Como se ele fosse um fardo, um peso, a pior obrigação do mundo. Oras bolas – trabalhar não há de ser tão ruim assim, viu?

Em 2012 aconteceram coisas legais – e meu trabalho foi a fonte de muitas delas.  O trabalho me permitiu ter uma vida bacana: longe de ser milionária, mas cada vez mais perto de ser tranquila. Trabalhei pra poder pagar minha tevê a cabo e passar domingos e feriados escolhendo filmes. Trabalhei pra poder ir no cinema e comprar o maior balde de pipoca. Trabalhei pra poder comprar coisas para a casa, fazer comidas gostosas para o jantar, pra poder pegar táxi nos dias de chuva.  Pra poder passar o final de semana na praia, comprar um sapato amarelo e um laranja ao mesmo tempo; trocar de carro, trabalhei pra me encantar com roupas na vitrine, entrar na loja e provar e gostar e levar. Trabalhei pra ter um iPhone, uma caixa de esmaltes com cores variadas, pra jantar várias vezes no Temaki. Trabalhei pra ter o essencial – e, por quê não?, um pouco de luxo. É pra isso que a gente trabalha: pra viver do jeito que a gente quer.

Trabalhei pra poder chegar em casa cansada e abrir uma cerveja enquanto assistia a cidade se movimentando pela janela. Trabalhei pra poder ir no bar depois do expediente, encontrar as amigas, gastar 100 reais num boteco sem culpa, tomar sangria a tarde toda num feriado e comer camarão na beira da praia.  Trabalhei tanto que não senti a menor culpa ao recusar convites, perder festas, dormir um dia inteiro: trabalhar dá trabalho e a gente precisa dar um jeito, achar tempo livre pra fazer nada. Trabalhei pra dar mais valor a cada hora de almoço, a cada final de semana. No trabalho também conheci pessoas que se tornaram essenciais na minha vida. No trabalho  reconheci minhas qualidades e enfrentei meus defeitos. Em 2012 eu trabalhei muito pra me sentir útil, reconhecida, pra ser valorizada, admirada e respeitada.

Não trabalhei para juntar (quem sabe em 2013 eu consiga): trabalhei para aproveitar. E posso dizer que aproveitei.  Por isso em 2013 eu quero fazer muitas coisas – trabalhar é a principal delas, é o motor que faz a minha vida seguir em  frente.

Um 2013 com muito trabalho pra todo mundo – e muitas horas livres pra desfrutar também =)

Manifesto contra a banalização do amigo secreto

12 Dec

Texto publicado originalmente em novembro de 2007 – mas como bem lembrado pela Andreia; ideal para ser republicado agora,  época em que o amigo secreto vem assombrar os corredores das firmas.

Manifesto contra a banalização do amigo secreto

Ou seja, um manifesto impossível. Porque amigo secreto deveria ser feito entre AMIGOS. Para você comprar um presente legal para alguém que gosta. E receber um presente legal de alguém que gosta de você. Já não se fazem mais amigos secretos como antigamente…

Um dos clássicos é o amigo secreto da firma. É o auge da vergonha alheia. Você precisa participar, caso contrário já sabe: anti-social, pão-duro, pobrete. Em algum momento você vai viver isso, ter de gastar energia e dinheiro dentro de lojas atrás do presente do seu amigo-secreto. É tão secreto esse amigo que vocês nunca conversaram muito. Mal e mal dividem o mesmo ambiente dentro da empresa. Mas lá vai você, primeira parcela do 13º. na mão, comprar um CD com os hits da Jovem Pan ou um porta-guardanapos da Camicado. E já que quem está na chuva tem que se molhar, aproveite e compre um cartão brega onde poderá escrever seus votos de um excelente 2013  para seu “amigo”.

E o dia da revelação? Aquela mesa enorme dentro de um bar aleatório. É um grande feito, difícil juntar tanta gente sem afinidade alguma em um mesmo lugar – tirando o próprio escritório, claro. O assunto não varia muito: trabalho. Porque é a única coisa sobre a qual sabem conversar coletivamente. Vocês não gostam das mesmas músicas, filmes, lugares e pessoas. Com sorte, você terá um colega piadista sentado ao seu lado que fará a noite passar um pouco menos arrastada. O chefe vai falar umas bobagens, todo mundo vai sorrir (afinal, ele é o chefe) .

Depois de uns aperitivos típicos de firma, como tábua de frios e alexsander, chega o momento mais V.A. de todos: “meu amigo secreto é uma pessoa bastante quieta e inteligente”, a forma simpática de comunicar ao pessoal que você foi brindado, sorteou o nerd da equipe. “Minha amiga secreta é super expansiva”, outra forma educada de dizer que você sorteou a descompensada que xinga o marido em alto e bom som no meio do expediente. Pra completar o festival de constrangimento coletivo, é de bom tom aplaudir, puxar torcidinhas, enfim, fazer uma algazarra. Essa é fácil e você pode aproveitar o momento de zorra-total para tirar uma com a cara dos colegas malas. Basta ser criativo e bater na mesa, por exemplo:
“Meu amigo secreto gosta de se vestir bem e hoje usa camisa rosa”. Torcidinha = viadinho! viadinho! viadinho!
“Minha amiga secreta é muito bonita e inteligente”. Torcidinha = beija! beija! beija!
“Meu amigo secreto é uma pessoa mais do que especial e é meu chefe”. Torcidinha = puxa-saco! puxa-saco! puxa-saco!
“Minha amiga secreta foi promovida recentemente”. Torcidinha = xunxo! xunxo! xunxo!
[vou parar por aqui, estou me empolgando… mas enfim, viram como é fácil?]

Assim, no dia seguinte todo mundo vai ter assunto durante o trabalho: nooooossa, como tava divertido o nosso amigo secreto, nééééaamm???? Lá no seu íntimo, enquanto balança a cabeça concordando com a colega, você também dá graças porque aquilo tudo acabou e jura que no próximo ano estará fora da cafonice toda.

Ca.fo.ni.ce. Se você tem bom senso, também não gosta.

Ninguém gosta de amigo secreto na firma. Sério! Pesquisas indicam que dez entre cada dez amigos secretos corporativos foram idealizados e organizados por puxa-sacos, cabeças-de-vento ou pessoas com muito tempo ocioso durante o dia. O cara está ali, meio sem fazer nada, já preencheu planilhas, googleou as notícias do dia e de repente tem a brilhante ideia: ei, pessoal, vamos fazer um amigo secreto?

Ninguém gosta de pensar no tema, mas todo mundo fica naquele maldito bambolê social. Rola um silêncio sepulcral até que uma criatura resolve responder que sim e aí já viu. Você vai gastar dinheiro para presentear alguém que apenas tolera das 8h às 18h e receber um presente que, com sorte, vai parar na sua gaveta de “inutilidades que posso precisar um dia”.

Amigos secretos da firma não dão blusas legais, tênis novos ou uma coleção de esmaltes com as cores da estação. Não dão aquela cigarreira que você está namorando há meses, afinal fumar é feio e seria um presente politicamente incorreto. Amigos secretos da firma não dão CDs bacanas – no máximo, um vale presente, para você ir até o shopping reclamando da falta de criatividade alheia. Amigos secretos da firma não dão uma garrafa de vinho bom, um celular novo para substituir o seu que estragou. Não sabem nem a sua cor preferida, para ao menos te dar um bom par de meias. Não dão apetrechos bacanas para a sua cozinha, no máximo uma colher de pau genérica ou um cortador de bolos que, além de não combinar com o resto dos seus talheres, tem utilidade zero. Você não gosta de bolo. Amigos secretos da firma não dão perfumes, afinal é muito investimento em um colega que você gosta médio. Não dão nem mesmo sandálias havaianas, um clássico coringa – no máximo, uma katina surf feia e fora de moda. Não acertam nem mesmo na estampa do avental, caso resolvam dar algo realmente útil.

Obrigada.

30 Nov

dreams

O problema é que a gente não tem o hábito de agradecer, só de pedir. De uns tempos pra cá, tenho me policiado para ser mais grata e cobrar menos do mundo.

Acho que o posto de vítima não me cai bem: não sou uma pessoa sofrida. Tenho a casa (é alugada, mas é o lugar que chamo de casa), o carro, o marido, o trabalho. Minha cama é o melhor lugar do mundo. Adoro (e posso) passar o domingo inteiro no sofá, pijama e banho tomado, assistindo seriados com um único compromisso: fazer o melhor jantar do mundo.

A gente sempre acha que falta alguma coisa. E pior que sempre falta mesmo, né? Uma casa de verdade, um sofá maior, um jogo de toalhas novo, uma viagem bacana, um carro que não dê tanto problema. Também falta tempo, falta mais dinheiro, falta perder uns kg; falta ter companhia o tempo todo, falta o quintal pra criar dois cachorros. Falta tudo isso – mas na verdade, o que falta é compreensão. E não do tipo “ser compreendida”. Falta compreender. Tudo o que a gente tem, é porque merece: ou porque trabalhou pra ter, ou porque foi legal com alguém que te deu aquilo.

A gente recebe o que a gente dá. O ditado mais antigo do mundo certamente não existe à toa.

Às vezes a gente tem tudo e não vê, o que falta é olhar pra dentro mesmo. Agradecer. E se esforçar para ter mais. O mundo não está aqui pra nos servir. A gente é que tem que fazer alguma coisa pra servir nessa vida.

Imagem: We Heart it – Kiss the stars goodbye Tumblr

A história da Kiki

29 Nov

Verão de 1998.  Eu voltava do estágio, ainda era dia claro (viva o horário de verão). Um cãozinho me seguiu do ponto de ônibus até em casa. Achei que ele podia estar faminto, dei um pedaço de pão. No dia seguinte a cena se repetiu: desci do ônibus, o cão estava lá e me seguiu até em casa. Outro pedaço de pão. No terceiro dia foi diferente. O cão facilitou as coisas e me esperou no portão de casa mesmo. Desta vez, pão e água. A família toda estava na praia, lembro de ligar pra minha mãe e dizer: “tem um cachorro simpático que não sai da frente de casa”. Dias depois, descobri que não era um cão – era uma cadelinha. Foi pro veterinário, tomou banho, vacina, remédios e o inevitável aconteceu: ela passou pro outro lado do portão, com o meu total consentimento.

A gente tinha outra cadela em casa, a Pink. Mas ela estava de férias na praia junto com a família. Então a cadelinha nova achou que a casa para onde acabara de se mudar era só sua. A Pink voltou e foi aquela confusão: as duas não ficavam juntas sem um arranca-rabo (literalmente). Durante meses, ter dois cães foi um trampo – enquanto uma saía, a outra entrava, uma ficava na cozinha, a outra na sala. O importante era que nunca se cruzassem. A Pink, que já era velhinha, adoeceu e morreu.

A Kiki – sim, este ficou sendo o nome da “nova” cadelinha da casa – não sentiu a menor falta, eu acho. Reinou absoluta por anos e anos. A família cresceu, os irmãos foram saindo de casa e a Kiki cada vez mais rainha daquele espaço. Virou a companheira inseparável da minha mãe, o tipo de cachorro que fica esperando na porta do banheiro enquanto o dono toma banho. Por um, cinco, dez anos… quatorze, pra ser mais exata.

Vou confessar para vocês que a Kiki não era assim um cachorro modelo, não. Além da antipatia por outros cães, ela também não fazia a menor questão de ser simpática com humanos – exceto com a minha mãe, é claro. Nunca foi o tipo de cão que faz festa quando alguém chega em casa. Pelo contrário: do seu cantinho no sofá, media cada visita com um olhar penetrante e um “sorriso” seguido de rosnado. Não era cachorro de colo, mas se você falasse com jeitinho “deite para coçar” ela logo virava a barriga pra cima: pronto, isto é o máximo que você terá de mim. Coce minha barriga e não me incomode. Ainda assim, lembro de todos os invernos que ela passou deitada no sofá do meu lado, esquentando os meus pés.

Dava para ouvir o barulho das suas patinhas pelo piso de madeira o dia todo: onde minha mãe ia, a bichinha ia junto. Tic, tic, tic, tic, tic, tic. O tipo de barulho que você se acostuma de tal forma que nem percebe mais… mas quando silencia, faz uma falta danada.

Ser gorda não é um problema

16 Oct

Posso dizer isso com certo conhecimento de causa. Há um ano e meio comecei uma reeducação alimentar – que dura até hoje e vai durar pra sempre. Perdi 14 kg, ganhei 3, perdi mais 1. Preciso contar o que aconteceu depois que eu emagreci, de forma prática e sucinta: nada. Não fiquei rica, nem famosa, nem usei as roupas maravilhosas das modelos. Homens incríveis não vieram bater à minha porta, implorando por uma chance ou ameaçando destruir meu casamento. Eu não fiquei mais legal, mais inteligente ou mais atraente.

Eu não sei o que acontece com o mundo – ou com a parte feminina do mundo, pra ser mais precisa. Sonho com o dia em que as mulheres vão ser mais interessantes, falar sobre livros, filmes, discutir amenidades, comentar a novela, que seja. Será bem mais divertido do que ouvi-las reclamando, o tempo todo, sobre o tamanho da bunda, da barriga, dos peitos; sobre o zíper que não fecha, sobre os quilos ganhos no churrasco de sábado. Fechar a boca que é bom e surte efeito, ninguém quer: a mulher de hoje mantém a boca aberta demais, o tempo todo, sempre para falar sobre seus defeitos em longas conversas inúteis regadas a milk shake, batata frita e cupcake.

Essa relação estranha das mulheres com a balança, na minha opinião, não tem a ver com passarelas, revistas de moda e supostos “padrões impostos pela sociedade”. Tem a ver, pura e simplesmente, com olhar-se no espelho e gostar do que vê. Se você não gosta do que vê, a solução é igualmente simples: faça alguma coisa. Mas para quê evitar a sobremesa, a coxinha, o pacote de bolacha recheada? Daí vou reclamar do quê? Vou sofrer por quê? É como se a culpa de tudo o que dá errado estivesse ali, naquela barriga grande e mole, naquela bunda cheia de celulite. “Quando eu emagrecer vou ser mais feliz”. Não, não vai, porque você não vai emagrecer. Você não tem forças para isso. Você gasta toda a sua energia reclamando dos ponteiros da balança. Recursos mal direcionados, eu diria.

Ser gorda não é um problema. Nunca foi – nem antigamente, quando as gordinhas eram o “padrão de beleza”, nem hoje. Mulheres gordas namoram, trepam, casam e têm filhos como todo mundo. O problema, mulherada, é ser chata. É passar os dias contando calorias para, no supermercado, comprar bandejas de danette e pacotes de Elma chips. É gastar tubos de dinheiro em tratamentos estéticos para contar sobre o não-resultado num happy hour regado a pastéis fritos e cerveja. Os homens gostam das mulheres: das gordas, das magras, das fofinhas e das esqueléticas. O que eles não gostam é de você, aí, com essa cara de bunda, reclamando dos culotes.