Manifesto contra a banalização do amigo secreto

12 Dec

Texto publicado originalmente em novembro de 2007 – mas como bem lembrado pela Andreia; ideal para ser republicado agora,  época em que o amigo secreto vem assombrar os corredores das firmas.

Manifesto contra a banalização do amigo secreto

Ou seja, um manifesto impossível. Porque amigo secreto deveria ser feito entre AMIGOS. Para você comprar um presente legal para alguém que gosta. E receber um presente legal de alguém que gosta de você. Já não se fazem mais amigos secretos como antigamente…

Um dos clássicos é o amigo secreto da firma. É o auge da vergonha alheia. Você precisa participar, caso contrário já sabe: anti-social, pão-duro, pobrete. Em algum momento você vai viver isso, ter de gastar energia e dinheiro dentro de lojas atrás do presente do seu amigo-secreto. É tão secreto esse amigo que vocês nunca conversaram muito. Mal e mal dividem o mesmo ambiente dentro da empresa. Mas lá vai você, primeira parcela do 13º. na mão, comprar um CD com os hits da Jovem Pan ou um porta-guardanapos da Camicado. E já que quem está na chuva tem que se molhar, aproveite e compre um cartão brega onde poderá escrever seus votos de um excelente 2013  para seu “amigo”.

E o dia da revelação? Aquela mesa enorme dentro de um bar aleatório. É um grande feito, difícil juntar tanta gente sem afinidade alguma em um mesmo lugar – tirando o próprio escritório, claro. O assunto não varia muito: trabalho. Porque é a única coisa sobre a qual sabem conversar coletivamente. Vocês não gostam das mesmas músicas, filmes, lugares e pessoas. Com sorte, você terá um colega piadista sentado ao seu lado que fará a noite passar um pouco menos arrastada. O chefe vai falar umas bobagens, todo mundo vai sorrir (afinal, ele é o chefe) .

Depois de uns aperitivos típicos de firma, como tábua de frios e alexsander, chega o momento mais V.A. de todos: “meu amigo secreto é uma pessoa bastante quieta e inteligente”, a forma simpática de comunicar ao pessoal que você foi brindado, sorteou o nerd da equipe. “Minha amiga secreta é super expansiva”, outra forma educada de dizer que você sorteou a descompensada que xinga o marido em alto e bom som no meio do expediente. Pra completar o festival de constrangimento coletivo, é de bom tom aplaudir, puxar torcidinhas, enfim, fazer uma algazarra. Essa é fácil e você pode aproveitar o momento de zorra-total para tirar uma com a cara dos colegas malas. Basta ser criativo e bater na mesa, por exemplo:
“Meu amigo secreto gosta de se vestir bem e hoje usa camisa rosa”. Torcidinha = viadinho! viadinho! viadinho!
“Minha amiga secreta é muito bonita e inteligente”. Torcidinha = beija! beija! beija!
“Meu amigo secreto é uma pessoa mais do que especial e é meu chefe”. Torcidinha = puxa-saco! puxa-saco! puxa-saco!
“Minha amiga secreta foi promovida recentemente”. Torcidinha = xunxo! xunxo! xunxo!
[vou parar por aqui, estou me empolgando… mas enfim, viram como é fácil?]

Assim, no dia seguinte todo mundo vai ter assunto durante o trabalho: nooooossa, como tava divertido o nosso amigo secreto, nééééaamm???? Lá no seu íntimo, enquanto balança a cabeça concordando com a colega, você também dá graças porque aquilo tudo acabou e jura que no próximo ano estará fora da cafonice toda.

Ca.fo.ni.ce. Se você tem bom senso, também não gosta.

Ninguém gosta de amigo secreto na firma. Sério! Pesquisas indicam que dez entre cada dez amigos secretos corporativos foram idealizados e organizados por puxa-sacos, cabeças-de-vento ou pessoas com muito tempo ocioso durante o dia. O cara está ali, meio sem fazer nada, já preencheu planilhas, googleou as notícias do dia e de repente tem a brilhante ideia: ei, pessoal, vamos fazer um amigo secreto?

Ninguém gosta de pensar no tema, mas todo mundo fica naquele maldito bambolê social. Rola um silêncio sepulcral até que uma criatura resolve responder que sim e aí já viu. Você vai gastar dinheiro para presentear alguém que apenas tolera das 8h às 18h e receber um presente que, com sorte, vai parar na sua gaveta de “inutilidades que posso precisar um dia”.

Amigos secretos da firma não dão blusas legais, tênis novos ou uma coleção de esmaltes com as cores da estação. Não dão aquela cigarreira que você está namorando há meses, afinal fumar é feio e seria um presente politicamente incorreto. Amigos secretos da firma não dão CDs bacanas – no máximo, um vale presente, para você ir até o shopping reclamando da falta de criatividade alheia. Amigos secretos da firma não dão uma garrafa de vinho bom, um celular novo para substituir o seu que estragou. Não sabem nem a sua cor preferida, para ao menos te dar um bom par de meias. Não dão apetrechos bacanas para a sua cozinha, no máximo uma colher de pau genérica ou um cortador de bolos que, além de não combinar com o resto dos seus talheres, tem utilidade zero. Você não gosta de bolo. Amigos secretos da firma não dão perfumes, afinal é muito investimento em um colega que você gosta médio. Não dão nem mesmo sandálias havaianas, um clássico coringa – no máximo, uma katina surf feia e fora de moda. Não acertam nem mesmo na estampa do avental, caso resolvam dar algo realmente útil.

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