A última vez que vi você

27 Mar

A barba estava por fazer. Você usava a jaqueta preta, aquela de sempre. O perfume de sempre, aquele que é só seu. Vou te contar um segredo: às vezes na rua sinto aquele mesmo cheiro e, mesmo sem querer, preciso olhar em volta pra ter a certeza de que não é você.

A última vez que vi você teve um pouco de tudo. Briga, beijo, abraço, pipoca e cobertor, vinho, lágrimas, promessas e tempestade. Você me abraçou forte e falou que era real, que era pra sempre, que nunca tinha sido tão intenso. Dormimos assim, com abraço forte, cobertor. Você dormiu; eu mal fechei os olhos, fiquei a noite toda pensando se você era de verdade e quanto tempo ia demorar pra gente se encontrar de novo.

O dia seguinte foi um dos mais cinzentos de que tenho memória. Você entrou no carro, fechou a porta, demorou um pouco para ligar o motor. Olhava pra mim pelo vidro, enquanto eu tentava conter o impulso de te dizer pra jogar tudo pra cima, rasgar as passagens e viver uma história comigo. Mas sua história já estava agendada, tinha hora pra chegar e portão pra embarcar. Não tive coragem de ir até o aeroporto – qualquer despedida seria só uma forma igualmente dolorosa de te ver partir. Sua história já tinha destino. O seu destino era diferente do meu.

Duas semanas depois, uma encomenda, uma pequena caixa. Dentro dela, três folhas tamanho A4, com tudo escrito em fonte arial tamanho 12. As mesmas promessas – eu ia te ver, pra encurtar esse tempo tão longo, mas você também tinha data para voltar.

O inverno passou.

A última vez que vi você às vezes  sumia do meu pensamento. Solidão é um lance complicado e começou a ficar difícil esperar tendo só aquelas três folhas A4 e um monte de lembranças. Não resisti.

A primavera passou.

De vez em quando, gostava de pensar que você ia voltar. Te imaginava do mesmo jeito: barba por fazer, jaqueta preta e aquele sorriso que você sempre guardava pra mim. Solidão deixou de ser um lance complicado.

O verão passou.

Mais um amor acabou. A última vez que vi você. Há quase um ano. A carta, aquela de três páginas, ficava na gaveta logo ao lado da cama. Antes de dormir, eu lia. Sempre que lembrava. “Será que estou esquecendo?”

O outono chegou.

As lembranças antes vinham tão fáceis, deslizavam pela memória, me fazendo sorrir. Agora não mais. Precisava me esforçar para sentir alguma coisa. “Estou esquecendo”.

O inverno chegou.

Solidão é um lance complicado. Mesmo que me esforçasse, não conseguia mais lembrar dos detalhes. Já não sabia mais que dia tinha sido, que horas você tinha embarcado, que filme a gente tinha assistido e o quanto eu tinha te amado.

Às vezes – até hoje – quando estou andando na rua sinto o seu perfume. Tantos anos se passaram. Você nem deve usar o mesmo. Mas eu ainda olho pra ver se é você.

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3 Responses to “A última vez que vi você”

  1. edusanches March 28, 2012 at 1:22 pm #

    Muito bem escrito.
    Beijos.

  2. Bia March 29, 2012 at 8:12 pm #

    Aaaahhhh!! Me identifiquei muito! Que lindo Paula!

  3. Ms. V April 1, 2012 at 6:13 pm #

    Nossa, me arrepiei lendo esse…

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