Reaprendendo a escrever

6 Dec

Eu amava cadernos de caligrafia, aqueles de tarja amarela. E os usei à exaustão até a quarta ou quinta série, não lembro ao certo. A professora fazia ditados e incluía palavras difíceis como ojeriza, exceção, maisena, persuasão. Foi assim que eu aprendi a escrever, igual a todo mundo.

Mas gostar de escrever mesmo, como gosto até hoje, talvez tenha sido alguns anos depois. Não importa, quem se importa? Antes eu achava que escrever era um hobby. Algo gostoso, que qualquer pessoa poderia fazer nas horas vagas. Depois de um tempo percebi que escrever era mais que um hobby, era um desejo constante que me invadia sempre que estava sem fazer nada. Foram páginas e mais páginas de word nunca publicadas. Blogs, uns três ou quatro. Emails gigantes enviados para pessoas distantes que, juntos, dariam um livro. Ou mais.

Escrever se tornou um diferencial no meu currículo. Todas as empresas por onde passei, sem exceção, reforçaram isso. Eu começava em um determinado cargo, com uma determinada função, e quando via já estava dentro da comunicação. Escrevendo. Já escrevi textos institucionais sobre coisas que vocês nem imaginam que existe – compressores de geladeira, por exemplo. Já escrevi de tudo, de nota de rodapé a discurso de CEO. Ex-colegas de trabalho se referem a mim como “a maga das palavras”. E ainda assim, nunca publiquei um livro. Estou a milhas de distância daqueles que admiro, dos colunistas dos jornais aos grandes autores. Poderia ser triste, mas não é: não tenho a sensação de “missão cumprida” em relação àquilo que sei fazer de melhor. E isso me move a fazer mais.

Eu acho que escrever bem, dominar as palavras, construir bons textos – sejam eles jornalísticos ou românticos – é um dom, um talento, uma coisa que nasce com você. Que precisa ser lapidada, aprimorada – e é isso que eu tento fazer todos os dias.

Mas saber escrever, a escrita do dia-a-dia, aquela que é necessária, que é indispensável, não é um talento. É uma obrigação. A pessoa que chega até um curso superior sem saber escrever deveria voltar para o primário, pois alguma coisa deu errado por lá. Por isso eu fico triste com as redes sociais. Elas dispensaram coisas importantes da nossa língua. Letras, vírgulas, pontuação, concordância, ortografia: tudo isso ficou pra trás. O importante é passar a mensagem e se fazer entender. As redes sociais transformaram idiotas em autores. Trouxeram à tona a ignorância de gente comum que, ao invés de se esforçar para escrever direito, despeja bobagens mal escritas na internet todos os dias.

E me irrito com a quantidade de coisas ruins que preciso “pular” para chegar ao conteúdo que me interessa. Me sinto numa corrida de obstáculos: a cada 5 idiotices ultrapassadas, tenho o bônus de ler uma coisa bacana. Você pode me dizer que tem filtro, mas não funciona pra sempre. Em algum momento o filtro vai falhar e você será surpreendido com um encomodar.

Não acho que as redes sociais deixaram as pessoas burras… elas só deixaram os burros mais expostos. E eles acham graça nisso tudo.

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10 Responses to “Reaprendendo a escrever”

  1. mardebem December 6, 2011 at 9:08 pm #

    Há alguns anos eu comecei a me policiar e parar de escrever com a linguagem de internet. Até mesmo em SMS. Só encurto as palavras quando ultrapasso o limite de caracteres.
    Acho que iniciei este processo por causa do meu trabalho.
    Mas depois de um tempo, vi que teria um efeito positivo a longo prazo.
    Mas confesso que às vezes me escapa um “vc”, “tb”, “msg”…. hehehehe

    Bom post!
    Ta aí a 1 coisa bacana entre 5 ruins! =)

    • Paula Schutze December 6, 2011 at 9:10 pm #

      No twitter é quase impossível escrever sem “vc”, “tb” ou “pq”. e se fosse só isso né, até que tava fácil de resolver =)

  2. briguet December 6, 2011 at 9:25 pm #

    Paula, você tem o principal item de qualquer currículo: inteligência. No seu caso, ainda há uma notável sensibilidade. Parabéns, moça. Do seu leitor.

    • Paula Schutze December 7, 2011 at 12:27 am #

      sabe que vindo de você, Paulo Briguet, jornalista, poeta e escritor, este elogio é uma honra.

  3. Ana Carolina December 6, 2011 at 10:00 pm #

    Concordo com você, o problema é mais profundo que escrever algo errado ou ininteligível. Em arquitetura, quando encontramos alguém com dificuldade de expressão no nosso meio, dizemos que este não sabe ver.

  4. L. December 6, 2011 at 11:11 pm #

    São pessoas como você, que salvam a nossa cultura! Não pare!

  5. Mitch Mitchell December 7, 2011 at 11:59 am #

    Muito lúcido, Paula. A sua escrita é simples e direta, e isso não é tao fácil de quanto parece. Desembarquei on seu blog hoje, após escala no Twitter, e vou voltaer sempre.
    Um abraço.

  6. Mitch Mitchell December 7, 2011 at 12:00 pm #

    Perdoe os erros de digitação…

  7. Teté Lacerda December 8, 2011 at 6:37 pm #

    perfeita sua colocação. cheguei aqui no seu blog via o Felipe Cordeiro e adorei. voltarei sempre. as ignorâncias e falta de cuidado estão expostas por aí. também fico doente ao ler “anciosa” e coisas do tipo. falta o detalhe, o cuidado, uma dose até de perfeccionismo.
    boa escrita!

  8. Anna Carla January 7, 2012 at 2:15 pm #

    Me identifiquei demais com seu texto. Diariamente, exatamente como você descreveu, tenho que pular muita coisa ruim para chegar no conteúdo que me interessa. Sem contar no desapontamento ao descobrir que um conhecido, possível amigo, da vida real pode ser um imbecil no virtual. Seu link já está nos meus favoritos. Feliz 2012!

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