Sobre macacos

28 Jul

Uma das minhas crises mais intensas dos últimos tempos tem muito a ver com internet. Acho tudo chato, óbvio, repetitivo. Não consigo mais achar humor nas mesmas coisas de antes, não tenho mais paciência para vídeos e tenho me esforçado para me relacionar com pessoas e não com a tela do computador.

Por outro lado, a internet é o instrumento e a razão do meu trabalho. Cheguei num ponto em que ficou difícil separar – e também conciliar – as duas coisas. Razão e emoção, pessoal e profissional, paixão e descontentamento. Acho que a internet tem deixado as pessoas mais solitárias – o problema é que ninguém enxerga isso ainda. Acreditam que Twitter e Facebook “preenchem” um espaço na vida quando, na verdade, criam um imenso vazio. Antes a gente achava coisas úteis pra fazer, ligava para os amigos, assistia um filme, dormia. Agora ficamos todos atrás do computador esperando algo acontecer. E nunca acontece. Porque a vida de verdade está do lado de fora, por mais óbvia que seja a constatação. Ninguém mais constata isso.

Mas aí é só o comecinho da minha linha de raciocínio. Tão intensa que vale uma bela filosofia – e aqui não é lugar para isso. As pessoas têm preguiça de ler. Além de tudo tem  isso: internet deixou as pessoas preguiçosas. Você tem 140 caracteres para passar a sua mensagem – e  cool mesmo é não usar todas as letras. Por isso o twitter é cheio de “conteúdo” como: ai, sono, fome.  Uma vida tediosa em quatro letras. Expressões e pensamentos que não valem a água da vina, que não precisam ser compartilhadas, estão nos interrompendo a todo instante.

Por indicação, comecei a ler um livro que, se não resolve, pelo menos ameniza meu incômodo.

“Segundo a teoria de T.H. Huxley, o biólogo evolucionista do século XIX, se fornecermos a um número infinito de macacos um número infinito de máquinas de escrever, alguns macacos em algum lugar vão acabar criando uma obra-prima – uma peça de Shakespeare, um diálogo de Platão ou  um tratado econômico de Adam Smith. (…)

Mas o que outrora parecia uma piada agora parece predizer as consequências de um achatamento da cultura que está embaçando as fronteiras entre público e autor, criador e consumidor, especialista e amador no sentido tradicional. A coisa não tem graça nenhuma. A tecnologia de hoje vincula todos aqueles macacos a todas aquelas máquinas de escrever. Com a diferença de que em nosso mundo Web 2.0 as máquinas de escrever são computadores pessoais em rede e os macacos não são exatamente macacos, mas usuários de internet. E em vez de criarem obras-primas, esses milhões e milhões de macacos exuberantes – muitos sem mais talento nas artes criativas que nossos primos primatas – estão criando uma interminável floresta de mediocridade.”

Andrew Keen – O culto do amador.

Tenho certeza que estudar e escrever sobre o tema – num lugar apropriado – vai me fazer bem. Não quero ser mais uma macaca.

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9 Responses to “Sobre macacos”

  1. Caminhante July 28, 2011 at 8:21 pm #

    Sugiro que você leia Bauman.

    • Paula Schutze July 28, 2011 at 8:23 pm #

      Obrigada. Sugestões neste momento são bem vindas =)

  2. Cá Cardoso July 28, 2011 at 8:26 pm #

    Queria apenas deixar um som de macaco aqui. Mas não sei como o macaco faz. Então:

    [som de macaco]

    • Paula Schutze July 28, 2011 at 8:28 pm #

      mais uma limitação da internet! hahaha. mas deve ser algo como “u-u-u-a-a-a”.

  3. Nadja G. July 28, 2011 at 8:42 pm #

    SENSACIONAL! Belo post. Concordo com você e também ando me irritando muito com “coisas da internet”.

    Beijos

  4. Ronise Vilela July 28, 2011 at 8:59 pm #

    Sorry! mas a macaca aqui colou o link desse post no twitter :o)

  5. Agente Clight July 29, 2011 at 6:50 pm #

    Que saudades da palavra vina! hahaha

  6. Denise July 30, 2011 at 12:26 am #

    Vina…. taí uma coisa que só ouvimos em Curitiba!

    Então, ao contrario do que a gente imagina, já tem quem se encha da internet. Eu deletei twitter, nunca entrei no facebook e tenho buscado relações mais ‘olho no olho’. Resultado? Meia dúzia de gato pingado mantém contato comigo (e meia dúzia é muito, eu só falei pq combina no ‘ditado’). Mas enfim, é a vida. Não senti que perdi nada neste tempo todo.
    😉

  7. Maurício August 3, 2011 at 12:30 am #

    O pessoal gostou do termo vina, mas eu gostei mesmo foi da expressão “não vale a água da vina”. Posso usar? (espero que não seja expressão de uso corrente em Curitiba, e só eu não saiba disso…)

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