Dor de verdade

17 May

Não faz tanto tempo assim que eu decidi abandonar a carcaça ranzinza que me cobriu por alguns pares de anos entre os 20 e os 30. Com o mau humor e as reclamações constantes ganhei algumas coisas: cabelos brancos, quilos na balança e desafetos. Hoje sou mais transparente, ainda que essa transparência precise ser convertida em silêncio ou distância em alguns momentos. Me esforço para ser uma transparente do bem ou, no mínimo, engraçada. Porque se eu não conseguir mais rir das pequenas coisas idiotas eu não tenho mais nada a fazer neste planeta mesmo.

Mas a vida está recheada de ranzinzas. Se você não gosta do frio, mude-se para um lugar quente. Se você odeia seu trabalho, procure um novo. Se tomar vento te deixa doente, use um casaco. Se você trabalha demais, faça algo bem inútil nas horas vagas. Se você tem insônia, procure tratamento. Se você se sente sozinho, busque companhia. Se você não tem tempo pra nada, o que anda fazendo com as 24 horas do seu dia?

O que acontece em meio a tudo isso é que as pessoas perderam um dos sensos mais primitivos da nossa existência: o senso da dor, do sofrimento. Sofre-se por coisas ridículas. Por um celular estragado (oi, eu!), por um final de semana cinzento, pelo trânsito, pelo ônibus cheio, pelo cartão de crédito estourado (por quem, hein?), por uma panela queimada, por uma cor de cabelo que não ficou boa, por doenças comuns e curáveis como resfriado e dor de garganta. Todas essas coisas que deveriam doer na superfície, e olhe lá.

Sofrimento é coisa séria. Dor de verdade é quando você descobre uma doença terminal, é perder um filho ou um pai ou um avô. Dor de verdade é aquele aperto no peito que mistura distância e saudade. Dor de verdade é ser demitido, separar, morrer de fome ou de frio. Dor de verdade é levar um tiro, ser atropelado, perder alguém que você ama demais. O resto é pura rabugice.

Advertisements

4 Responses to “Dor de verdade”

  1. Karina Sabbag May 17, 2011 at 8:45 pm #

    Dona Paula, a única dor que discordo é a dor de ser demitido. Pra mim entra na categoria rabugice.

    • Paula Schutze May 17, 2011 at 8:53 pm #

      Permitido discordar! hehehe. eu acho que dependendo do caso, ser demitido dói sim. mas a verdade é que profissionalmente, a vida segue…

      • Franciele Flach (@franzflach) September 22, 2011 at 3:06 am #

        estou apaixonada pelo Blog! Gostaria de ter escrito esse texto. Parabéns, e obrigada por escrever.

  2. Karina Sabbag May 17, 2011 at 9:50 pm #

    Pois é. Mas a vida segue apesar de todas as outras dores também, né? Então, sei lá, deve ser tudo rabugice! 😛

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: