as coisas para as quais não estamos preparados

28 Jul

(ou: aquilo que não estava nos livros. mesmo)

lidar com a perda, por exemplo. não tem como ensinar isso. a gente só sabe a dor dos machucados quando cai de boca na calçada, quando prende o dedinho na porta. mas perder pessoas é sempre doído, não tem remédio, merthiolate, band-aid, nada.

perder pessoas – seja pra vida ou pra morte – deixa um buraco tão grande que nem sei se posso chamar isso de “dor”. porque dor tem cura, saudade não. dizem que o tempo ameniza, que dor vira lembrança. será que vira mesmo?

ninguém morre de saudade, ninguém morre de amor, aquilo que hoje frita seu coração daqui a um ano será só a lembrança de um dia difícil. mas “daqui a um ano” é um dia tão distante…

hoje lembrei de todas as minhas grandes perdas. do dia em que meu pai morreu, aos pontapés que levei daqueles que eu chamava de “homens da minha vida”. passou? passou. mas isso não é suficiente pra que eu tenha aprendido a passar de um jeito mais leve por estes dias difíceis. a morte de alguém próximo, mesmo que fosse esperada, acabou comigo em segundos. a dor de amor que a minha irmã está sentindo desde ontem parece que é minha também. isso significa que não, a gente nunca aprende a lidar com a perda. talvez a gente só aprenda, na verdade, a se conformar com esse tempo de espera, a longa pausa que se forma entre um fim e um recomeço.

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3 Responses to “as coisas para as quais não estamos preparados”

  1. Ronise Vilela July 28, 2010 at 8:39 pm #

    Olha! processar uma perda é complicado. Principalmente quando sai da esfera da teoria e vai direto prá pele. Perdi minha mãe de forma instantânea há 8 meses e meio. Perdi a noção de tempo: às vezes me parece que foi ontem e em outras situações, que se passaram séculos. Perdi o chão. E agora, sou só mãe.
    Nessas perdas, perdas e perdas, a identidade da gente também se esvai, pelo menos foi o que aconteceu comigo. E para não perder meu mais íntimo de mim, procuro me resgatar correndo, escrevendo, brincando com minha filha e me encontrando com amigos.
    Não é fácil!

  2. Marcio Hasegava August 3, 2010 at 6:41 am #

    Adorei este texto. Indiquei-o no meu Tumblr: http://umpulha.tumblr.com/post/894481036/

  3. Oksana August 10, 2010 at 5:19 pm #

    Lindo texto.
    Bem verdade. Acho que com o tempo a gente só cansa de manifestar nossa revolta, nossa rebeldia ante o que não podemos mudar… Em vez de chorar aos berros e batendo as pernas, fazemos isso em silêncio, contidas, esperando que chegue o alívio que, agora sabemos, virá.

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