a copa de 2006

6 Jul

na falta de tempo – e de inspiração também – achei um post que escrevi na Copa de 2006.

17 de junho de 2006: é Copa do Mundo e o Bussunda morreu.

Não combina mesmo. Copa é festa, morrer não. O Bussunda era engraçado, morrer não.

Não entendo de impedimento, escanteio, tiro de meta, mas gosto da Copa. Gosto da forma como todo dia de jogo se parece sempre com uma grande final. A cidade pára, o barulho que se ouve por todos os lados é diferente. E fica tudo tão verdeamarelo que parece que a outra Copa foi há muito, muito mais do que 4 anos atrás.

É que a memória da gente prega peças. Lembro com riqueza de detalhes de como foi acordar cedo em algum dia de julho de 2002, vestir a camiseta do Brasil e descer a Silva Jardim em direção à casa de amigos. Lembro com riqueza de detalhes, mas nem tanto assim: não sei mais que dia da semana ou do mês era. Então, nossa suposta “memória com riqueza de detalhes” não resiste tão bem ao tempo. O tempo é implacável.

E eu tenho medo do tempo. Será que daqui a 4 anos, na próxima Copa, eu vou lembrar com riqueza de detalhes de um dia como hoje? Será que é por isso que eu tenho vontade de andar pra cima e pra baixo com a câmera digital? Porque ela é, de fato, a minha verdadeira memória fotográfica. O resto se perde. Mesmo que eu ache que não.

É por isso que eu cultivo coisas. Músicas que eu nunca tiro do meu mp3. Fotos que eu nunca arranco do mural. Cartas e bilhetes e e-mails impressos que deixo guardados logo na primeira gaveta, à mão. Cultivo essas coisas porque confio na minha memória, sim, mas não confio no tempo.

O tempo leva algumas coisas embora – e por mais que você insista em acreditar que ele traz outras… fato: o tempo leva algumas coisas embora. Cenas que duraram horas se transformam em traillers de segundos quando você revê a sua própria vida. Resumos curtos, tão curtos, de cenas longas, tão longas, que a gente fica vendo e revendo e revendo até o infinito na nossa memória. Tentando lembrar de algum detalhe que na verdade… já se perdeu no tempo. Rosto, pêlos, abraço… vão se transformando em névoa. Como fotos que vão ficando amareladas…

É por isso que eu sonho. Nos sonhos a gente vê as pessoas como elas são: o jeito de andar, o jeito de olhar. Nos sonhos a gente sente um abraço como se ele fosse de verdade. Nos sonhos a gente ouve a voz, a risada, a gente assiste os trejeitos, a gente lembra da forma com que alguém segurava o copo, acendia o cigarro. É por isso que eu sonho: pra zerar o contador do tempo. Pra despistar, enganar, impedir, evitar. Se o tempo me obriga a esquecer, o sonho me ajuda a lembrar.

E por falar em lembrar… Onde é que eu tava mesmo?

Ah, sim; é Copa do Mundo e o Bussunda morreu. Vamos rever a carreira do Bussunda no Fantástico, no Globo Repórter. Vamos relembrar a morte dele na retrospectiva 2006. Mas porra, o tempo é implacável e o Bussunda vai ser levado com ele. A Copa do Mundo também – se o Brasil não for hexa, a gente vai esquecer dessa Copa bem rapidinho.

É por isso que eu escrevo. Porque eu vou esquecer do dia em que o Bussunda morreu. Talvez eu esqueça a Copa da Alemanha também. Mas aí eu volto aqui e posso ler e lembrar. E junto com isso vai estar escrito mais uma porção de coisas em todas as entrelinhas, e daí eu vou me lembrar de outras coisas e histórias que eu, sinceramente… não gostaria de esquecer.

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One Response to “a copa de 2006”

  1. Oksana July 14, 2010 at 1:59 pm #

    Certo como o tempo.
    Quando começou essa Copa, eu nem lembrava onde tinha sido a última, assim como não lembrava que o Bussunda morreu naquela ocasião.
    Escrever é preciso!

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