a história da minha avó

7 Feb

sempre li/ouvi as histórias dos outros sobre suas avós. a comida gostosa, as férias de verão, as lembranças da infância. minha avó nunca foi esse tipo de avó. tinha pouca afinidade com as panelas e sua casa fica numa rua tão movimentada que é impossível criar ali um cenário bucólico de férias, com árvores carregadas de frutas e cheiro de flor. ela não fazia tricô, crochê nem sobremesas deliciosas.

mas trazia consigo histórias que só alguém que viveu noventa e dois anos poderia me contar. miúda, birrenta, mantinha a ferro e fogo os costumes e os pensamentos da década de trinta. nem por isso deixou de adaptar-se, sutil e morosamente, às “novas tradições” das gerações de seus netos: dos seis, somente um casou-se no papel. outro lhe deu seu primeiro bisneto. nenhum trouxe o esperado diploma de médico ou advogado.

com 92 anos, ela tinha para certas coisas a disposição que a gente muitas vezes não encontra na nossa rotina. circulava de ônibus biarticulado para resolver seus assuntos: ir ao banco, médicos, compras. conhecia (e sabia da vida de) todo mundo da vizinhança, ia ao salão, passava férias na praia, enfrentava o sol do meio-dia para tomar seu banho de mar.

assim como ela adaptou-se a nós, nós também nos adaptamos a ela. crescemos descobrindo novas formas de encantá-la, dobrá-la e agradá-la. porque família é exatamente isso: um exercício infinito de convivência.

eu sei que tive sorte nessa vida. nem todo mundo tem tanto tempo de convivência com os avós. mas, sabe? é que foi tudo tão rápido, de uma hora pra outra, como geralmente acontece com os velhinhos… de repente ela foi embora, pegando de surpresa todos aqueles que acreditavam que dona belita poderia viver até os 100. porque nós, no nosso egoísmo, não queremos ver partir ninguém que faz parte da nossa vida e da nossa história. queremos que nossos pais e avós sejam infinitos, porque não importa quanto a gente cresça, eles serão nossas referências, o ponto de partida da NOSSA vida…

… tchau, vó.

Advertisements

3 Responses to “a história da minha avó”

  1. bellenda February 9, 2010 at 12:14 pm #

    minha vó tb nunca foi a avózinha querida. ela é fofoqueira, faz intriga na família, fuma mais que qualquer pessoa que eu conheço, fala palavrão e não gosta de cozinhar de jeito algum.
    mesmo assim, ela é minha vó e quando ela for embora, vou sentir muitas saudades, pois é a única referência que eu tive de avó.
    mas todo mundo um dia vai. a gente só resta ficar triste um tempo, depois com as lembranças boas.

  2. Deni February 11, 2010 at 12:38 am #

    ótimo texto.
    tenho meus 4 avós ainda. no lado paterno, sou a neta mais velha (minha família é nova). Uma vó é ‘prendada’, mas é consideravelmente chata. A outra, mais legal não sabe fazer docinhos, pães nem bolos, mas faz um frango com coentro e uma bacalhoada… ai ai. heheh

  3. Nadja G. February 11, 2010 at 1:01 am #

    Poxa… que pena. Espero que ela tennha ido tranquilinha e que as boas lembranças possam aplacar a saudade. Beijos

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: