poesia da vida

23 Oct

volta-e-meia me vem à cabeça a célebre frase que alguém costumava me falar, “um lugar bonito, pena que tão mal povoado”. é assim que o mundo é, né? tirando as favelas do Rio de Janeiro, até que a cidade é bonita. tirando o fedor de São Paulo, a cidade até que tem seu charme. tirando o petit-pavê, até que Curitiba é agradável. e por aí vai… vai não.

o que estraga o mundo são as pessoas, só pra lembrar. inclusive fenômenos “naturais” como invasão de morros e fedor em rios são pura consequência de merdas (hahaha, essa foi sem querer) que já fizemos. o petit-pavê também! algum dia, alguém olhou para aquilo e achou que ficaria bonito pregar pedrinhas pretas e brancas nas calçadas da cidade. pra você ver que a gente não pensa MESMO antes de fazer qualquer cagadinha. sabemos que jogar lixo no rio vai deixá-lo fedido daqui uns 10 anos, mas o futuro parece muito distante. sabemos que a manutenção de pedrinhas é trabalhosa, que muitas delas vão soltar, causar tropeços, destruir saltos… mas o caminho mais curto é aquele que a gente já fez, né? dá-lhe petit-pavê na cidade toda.

mas enfim. ainda assim eu gosto do mundo. por exemplo: poucos acreditam quando eu digo que não me importo de andar de ônibus. mas é a mais pura verdade. veja bem, se a pessoa não tem carro e nem disposição pra andar 8km até o trabalho, o mínimo que ela deve fazer é aceitar sua condição. vou fazer o quê? roubar um carro? pegar carona na rabeira de caminhão?

e tem outra coisa. o ônibus que eu ando é um ônibus de família. não é o biarticulado enorme, fedido e lotado não. é ônibus pequeno, do amarelinho, cheio de senhorinhas, alguns engravatados, estudantes, funcionários de firma assim como eu. é todo mundo limpinho, cheirosinho – quem nunca entrou num interbairros às sete da manhã nem sonha que existe gente cheirando a cecê ANTES de pegar no pesado.

mas no meu amarelinho não. no amarelinho todo mundo tá limpinho às 7 a.m. a parte triste é que, gente, o chuveiro não limpa as pessoas por dentro, sabe. todo mundo arrumadinho, roupa passada, carregando a pastinha da faculdade que não deve custar barato. e todo mundo mal-educado.

o sofrimento começa assim que eu chego no ponto do busão: fica dentro de um terminal. ou seja, não tem fila. ou seja, vira zona. em pouco tempo, já peguei o macete que vai me garantir um confortável banco de plástico dentro do amarelinho: tem que esperar perto da porta. e pra isso, é claro, é preciso adivinhar aonde vai ficar a porta. afinal, o ônibus não está lá ainda, né? e aí, na hora que o busão estaciona, é respirar fundo e rezar. as pessoas ficam ensandecidas, repentinamente todo mundo está apinhado, empurra-empurra pra tentar entrar no ônibus antes. rola aquela muvuca tipo entrada de galera no estádio antes do show do ac/dc, saca?

e tudo isso pra quê, minha gente? pra ir sentado. um mísero banco de plástico, escorregadio e tão confortável quanto sentar a bunda num toco de árvore. e daí tem o povo que precisa entrar naquele ônibus, que sai carregado de gente até o talo, motorista fecha a porta e vai comprimindo todo mundo pra dentro da latinha. e pra quê? pra chegar 5 minutos antes, afinal hoje em dia todo mundo vive com pressa, então é melhor ser mal-educado mas ao menos chegar no horário.

de uns tempos pra cá, diversas situações me fizeram repensar a forma como eu me coloco no mundo. ser rabugenta e dona da verdade era super legal. mas o mundo é bem maior do que o meu umbigo, de modo que precisei rever vários contextos de socialização. passei a tolerar coisas bem mais xaropes do que um busão cheio. e passei a me expressar com mais parcimônia, o mundo não tem culpa se eu tenho problemas. parei de deixar os cascos pelo caminho. e com isso fiquei assim, mais leve, menos mal-humorada, e essa tarefas corriqueiras obrigatórias deixaram de ser um fardo. ainda não consigo enxergar a poesia da vida, e não acho que essa seja a finalidade. e a ideia também não é fazer do mundo um lugar melhor, afinal tem mais bilhões de pessoas que precisariam compartilhar disso. pra resumir, descompliquei certas partes da minha vida que não precisavam MESMO ser tão difíceis.

resumo de tudo é o que eu twittei dia desses: 99,99% do mundo não sabe que a gente existe. e ainda assim, não nos esforçamos para ficar em paz com os 00,01% que sabe…

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4 Responses to “poesia da vida”

  1. Deni October 23, 2009 at 6:52 pm #

    Tem coisas de busão que nunca entenderei. Apesar deste “empurra-empurra” clássico e também do comportamento mais que esquisito das pessoas que nao conseguem fazer uma fila pra entrar no ônibus quando ele chega no terminal, alguém consegue me explicar como é que as pessoas ficam olhando bancos vazios, estando de pé frente a eles e não sentar? E daí, quando vc senta, olham com cara feia? Ou ficam “trancando” a passagem, ou grudam na porta 2 ou 4 (quando descerão no terminal) e por aí vai. Sem contar os djs de busão, os adolescentes que acreditam mesmo que compartilhar música ruim é um bem para a humanidade…
    hehe

    (desabafando sobre busão)

    É legal ver vc falando de coisas de forma mais leve, de bem com a vida. =)

    • Paula Schutze October 23, 2009 at 6:58 pm #

      o foda do busão… são as pessoas! hahaha. é um dos lugares mais mal povoadoso do mundo todo 🙂

  2. Fabi October 23, 2009 at 8:25 pm #

    Eu estou aderindo aessa filosofia tbm…hehe. Adorei a frase final, que na verdade, tem tudo a ver com um começo, recomeço, início, bora!

  3. Oksana October 28, 2009 at 1:37 pm #

    Putz, recordo-me de uma época, ainda na facul, que eu pegava APENASMENTE três busões para chegar ao meu adorado estágio (que pagava R$ 350 sem vt), o amarelinho bonitinho até o terminal de Sta. Felicidade, a fétida lata de sardinhas Ligeirinho Bairro Alto-Sta. Felicidade e, finalmente, o famigerado Inter II.
    O tal Ligeirinho é uma tragédia. Em 3 anos que morei por aquelas bandas da cidade NUNCA consegui fazer uma viagem sentada. Mesmo que eu fosse a 1ª na fila e tivesse deixado passarem 14 ônibus antes desse, entravam depois de mim 45 velhinhos caquéticos, 14 deficientes físicos, 32 mulheres grávidas e outras 135 pessoas com crianças no colo e eu me obrigava a ceder o lugar conquistado com tanto sacrifício. E o fedor? Ah, o fedor era inacreditável. No frio curitibano que vc conhece bem, garoando, os vidros todos LACRADOS, muitas vezes eu ia colada na porta, abria aquela borracha entre as duas portas com os dedos e enfiava o nariz pra fora pra poder respirar.
    Um dia eu estava sentindo um aroma da natureza, tão fétido e inexplicável – sabe quando vc não imagina de que parte de um corpo humano pode exalar tal fedentina? será um pé? uma bunda? um suvaco? – quando, de repente, olho para o lado e vislumbro a fonte putrefata de tais odores: uma mulher simplesmente estava com aquele risco branco de baba ressecada cruzando a face, da boca até a orelha direita. A pessoa engole um gambá morto durante o sono e sai de casa assim, sem nem sequer lavar o rosto, escovar os dentes.
    Realmente, concordo com Sartre que o inferno são os outros.
    E concordo com vc que ser mais tolerante facilita as coisas. Deve ser mesmo a idade… Nem meus textos têm mais tanta graça agora que a acidez e a ironia dos anos idos estão sendo substituídas – bem aos poucos – por uma tranquilidade sábia e bem menos divertida.
    Fazer o quê? A vida segue.
    Beijos!

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