sobre quando crescemos de verdade – e não somente nos discursos

15 Sep

ah, sim, houve mesmo um tempo em que era mais fácil pensar sobre isso. tinha exemplo (a.k.a. vida alheia) pra tudo e gostava de discorrer sobre assuntos que, a bem da verdade, nem sempre me diziam respeito.

quem cresceu, quem retrocedeu, quem se deu bem, quem foi morar na indonésia. quem superou, quem guardou rancor, quem fingiu, quem cedeu, quem mentiu. mudei de ideia sobre tudo o que importa na vida – mudança dolorosa, aliás. vai deixando pelo caminho pessoas, histórias, convicções, discursos, desculpas que não pedi e aquelas que não aceitei, frases feitas, piadas prontas, cafés que nunca aconteceram. mudei de ideia sobre música, não gosto mais de todas aquelas, e assim uma montanha de lembranças foram varridas pra dentro de uma caixinha que despachei pro passado. e sobre filmes, já que hoje sou dependente de seriados.

mudei de ideia sobre roupas: a calça skinny, coitada, que já nem serve mais, perdeu espaço para peças cinzas. uma cor da qual sempre duvidei. mudei de ideia sobre espaço, preciso dele pra viver; e gosto mais do vinho branco do que do tinto. é melhor fazer um jantar em casa do que sair pra comer, todavida. mas não foi assim a vida toda… assim como as boas companhias são, hoje, aquelas que mais se parecem comigo. não vivem felizes o tempo todo e nem estão em busca disso. dividem o silêncio, os dias de mau humor, as neuras e os programas ruins na tevê.

crescer de verdade é muito foda, é mesmo uma coisa que dói por dentro, impossível de transcrever aqui ou em qualquer outro lugar. não sei se consigo passar por isso. mas a verdade é que isso se põe diante do seu nariz quando já está acontecendo…

mudar de ideia. olhar pra coisas que eram importantes e perceber que não fazem mais sentido algum. jogar fora aquele caderninho onde eu costumava anotar os “assuntos hypes” da vez para escrever longos textos sobre coisas que nunca vivi. e também as rolhas de campo largo guardadas, por anos a fio, no fundo de uma lata bonita. aprender a viajar sem levar o próprio travesseiro na bagagem – uma das lições mais difíceis, eu acho: desapego de tudo aquilo que não faz parte do seu momento. não é pra qualquer um.

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3 Responses to “sobre quando crescemos de verdade – e não somente nos discursos”

  1. hellen September 15, 2009 at 10:10 pm #

    nada diz mais sobre uma amizade do que assistir a programas ruins na tv. 🙂

  2. jana garcia September 17, 2009 at 3:34 am #

    caramba, tanto sem passar por aqui, e, de novo, a mesma sensação de “putaquepariu” ao ler seus textos. E olha que não sou (ainda) a Dori!
    Crescer de verdade é muito foda – mas só alguns sabem transcrever tão bem parte desse turbilhão que, um dia, talvez os mais novos tbm terão a sensação de que é universal.
    beijo!

  3. rhinedog September 24, 2009 at 12:12 am #

    Bom é olhar pra trás e ver que muita coisa deu errado, que há do que se arrepender, se envergonhar. Que muita coisa machuchou e não cicatrizou direito. Bom é perceber que muito do era motivo de orgulho, agora não vale nada. Bom é saber que já passei por tudo isso, e que é isso que dá sentido de verdade a tudo de bom que vivo. Quando olho meus amigos que deram certo, que vingaram, cresceram sem arranhões, agradeço por ter passado longe de sucesso, deve ser tedioso e frustrante. De que vale uma segunda-feira debaixo dos lençóis para quem nunca teve que ir todo dia ao trabalho tentando elaborar uma forma sileciosa de matar o chefe? De que vale um abraço pra quem nunca sentiu aquele vazio dentro barriga após ser deixado? A lucidez que vem da dor traz uma sensação ambígua, meio azeda meio doce, que talvez seja o mais próximo que cheguemos do tal sentido da vida.

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