vem neném.

11 May

confraternizações em família – dia das mães, por exemplo – me causam sentimentos muito dúbios. ora paro para prestar atenção nas conversas e vejo como mudaram: de quando éramos todos crianças e adolescentes, combinando passeios de banana boat para o verão; o assunto muda para trabalho e psicopatia.

ora paro para respirar fundo e tentar NÃO prestar atenção em outras partes da conversa: “seu sobrinho precisa de priminhos” é a que eu menos gosto, por assim dizer. não me agrada essa parte maternal da conversa, onde as mães da família tentam argumentar contra nós, as não-mães, discorrendo sobre a necessidade de ter mais crianças na família, como se fazer filhos fosse “só” inflar a barriga por 9 meses. como se na minha casa houvesse espaço, como se na minha conta houvesse dinheiro e como se na minha vida houvesse vontade de ter um filho, assim somente por ter, para fazer companhia a uma outra criança. e para que a minha criança fizesse companhia a essa criança, além dos 9 meses de barrigão, eu ainda teria de aguentar uns 2 anos sem dormir e mais outros 2 comprando brinquedos e frequentando reuniões de pais. aí então meu filho teria 4 anos e poderia, finalmente, fazer companhia a uma outra criança- já com 8, que provavelmente não acharia a menor graça em brincar com um pirralho de 4. bingo!

para não chocar a opinião pública familiar, resumo meus comentários a um sorriso bem amarelo, limito-me a dizer “se é tão bom, porque vocês não fabricam mais um?”, sempre permeando as palavras com risadinhas irônicas imperceptíveis.

ser mulher num mundo moderno como o nosso está cada vez mais cruel, meus caros. antes era o emprego, essa maldita inserção no mundo corporativo que nós mesmas inventamos. depois era o namorado, o marido, alguém para chamar de “seu” e finalmente barrar os olhares maldosos que escondiam pensamentos como “coitada… tão inteligente e tão sozinha” – como se não ter namorado fosse viver no fundo de um armário forrado de traças. depois, quando você já tem a casa e o emprego E o namorado… filhos. sim, façam filhos, vamos fazer filhos, triplicar nossas contas e responsabilidades, colocar mais uma criatura nesse mundo sem pé nem cabeça. como se não desejar ter filhos fosse um pecado, uma coisa feia, onde já se viu???

pode ser que eu nunca cresça o suficiente pra deixar crescer outra coisa dentro de mim… pode ser que eu já tenha crescido mais do que todas essas pessoas que insistem em usar esse discurso do século passado.

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2 Responses to “vem neném.”

  1. Lili May 13, 2009 at 1:43 pm #

    Paula, eu me vejo na mesma situação. De vez em quando, em reuniões familiares, tem algum engraçadinho que pergunta se eu não vou fazer um priminho para o meu sobrinho, afinal eu já estou quase nos 32 e o tempo está passando, etc…
    Como as respostas educadinhas não surtiam efeito, desenvolvi uma bem mal-educada: “Engraçado como a família está sempre querendo mandar no meu corpo. Quando eu era criança fui aconselhada a nunca tirar minha roupa na frente de nenhum homem, o que fez minha mãe passar a maior vergonha na frente do meu pediatra (homem). Quando eu era adolescente , não podia nem pensar em sexo, tinha que me preservar para meu marido. Agora que sou adulta querem que, ao mesmo tempo eu tire a roupa na frente de um homem, faça sexo com ele e faça uma criança. Nunca vou entender vocês.”
    Não sei se terei filhos. Meu namorado quer, eu acho bem bonitinhas as crianças alheias, mas não sei se quero uma para mim.
    Por tudo isso, ando bem sacuda de reuniões familiares e tenho fugido delas o mais que eu posso.

  2. andreia May 15, 2009 at 7:33 pm #

    ótimo post.

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