tempo, mano velho.

31 Mar

por hoje deixo um texto de Cristóvão Tezza que caiu como uma luva.
Tezza foi meu professor na faculdade, há 13 anos atrás, quando entendi que eu gostava mesmo de escrever.

Reflexões disparatadas sobre o tempo
Já tive uma vastidão de tempo na vida – para onde eu olhava, sobrava tempo, desdobrando-se verde num horizonte sem fim. Chutava as pontas do tempo com um desprezo suicida. Tempo para dar e vender. E eu dava e vendia, a quem quer que me pedisse. “Tem um tempo aí, cara?”. E eu ali, tirando do bolso sextas-feiras intermináveis, madrugadas amplíssimas, fins de semana de dois meses. Dormia quatro dias e quatro noites seguidas, e acordava com folga.

Eu podia ir para onde quisesse, que tinha crédito de tempo. Era abrir uma gaveta e o tempo transbordava, e eu com ele, feliz. Aproveitava o tempo só de percebê-lo à espera, um animal invisível, discreto, silencioso, que mal respirava em dez milhões de poros. Era bom não fazer nada, só saber que estava vivo: essa é uma sensação maravilhosa, quando em estado puro. “Estou aqui”, eu me dizia, como num filme.

Vivendo dentro do tempo, sendo a sua pele, jamais chegava ao limite de mim mesmo – nem precisava. Dei a volta ao mundo e cheguei antes de sair, pelas dobras do tempo. Estou sempre aqui, eu repetia: esse momento presente. Dormia hoje e acordava ontem.

Súbito, puxaram o tapete – fiquei velho.

Quer dizer, o tempo chegou. Não são tanto as marcas, que se corrigem, se disfarçam, se escondem, se adaptam. Nada disso. Nem a velha lição de moral, o dedo sacudindo, acusador, a dizer que qualquer coisa que você fizesse seria errada, porque todas as outras opções ficaram de fora. Não, por favor: esta não é uma crônica moralista, do tipo da formiga e da cigarra. O leitor sabe: a formiga trabalhou, a cigarra cantou, a formiga se salvou e a cigarra… bem, a fábula sugere que ela não se deu muito bem. A culpa teria sido a de não usar bem o tempo. Chegou o inverno, veio a neve, o frio, faltou comida, e então, mesquinhamente, a formiga se vingou da cigarra. Na verdade, deu aquela alfinetada de escárnio, que às vezes levamos pela vida afora: “Não falei?!”.

Nada mais ridículo que uma cigarra se fazendo de formiga, e uma formiga se fazendo de cigarra. Como sofremos, no lugar errado!

Mas também não é isso, a sugestão de que algumas pessoas são cigarras por natureza, e vivem para cantar, e outras são formigas, e vivem para trabalhar. Porque, pensando bem, cantar é um trabalho duríssimo. E frequentemente só trabalhar é uma moleza – entre outras coisas úteis, uma técnica requintada de se esconder do tempo. O leitor olhe em volta e confira. O que corrói mesmo não é o que se faz ou se deixa de fazer – é o tempo, a ideia do tempo, esse ser suspirante e devastador, para criar um pouco de poesia com o que não se compreende. O que podemos fazer a respeito? Bem, o cardápio de ofertas é amplo, entre reservar uma cadeira no céu ou encomendar uma boa plástica. Mas perco meu tempo: tudo que eu queria dizer é que já faz um ano que sou cronista – a filosofada só pegou carona.

|créditos: publicado aqui.|

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