se a alma não for pequena.

4 Mar

é curioso: tristeza dá audiência. já vivi isso na pele, lá pelos idos de dois mil e bolinha, lá pelos meus blogs antigos, que arrastavam centenas de leitores todos os dias. havia a ironia, havia o sarcasmo, mas o pano de fundo daquilo tudo era um só: a tristeza da solidão. o vai-e-vem dos casos de amor que nunca foram nem casos, nem amor. a montanha-russa deste coração que vivia em busca de alguma coisa que, convenhamos, talvez nem exista. mas dava audiência. todo mundo gostava de ler aquelas minhas doces e duras palavras, muitas vezes escritas entre lágrimas, outras tantas com o coração verdadeiramente estilhaçado. o sofrimento, confesso e admito, rendia textos melancolicamente maravilhosos. hoje, para escrever algo d´aquele tempo, preciso entrar numa história que já não é a minha, ou me concentrar numa faísca de lamúria que porventura me venha à cabeça. preciso pegar a faísca, aprisioná-la dentro da cabeça, respirar fundo, ficar em silêncio, botar uma música triste, olhar para o céu estrelado e não conseguir enxergar nada. era tão fácil e hoje exige tanto.

e, sinceramente, custo a entender. talvez porque hoje a situação seja outra. mas custo a entender que diante de todas as coisas ruins que vemos na tevê e nos jornais e na internet; que diante de todas as mazelas que somos obrigados a conviver diariamente, diante de todas as obrigações sociais e corporativas que nos tomam boa parte do dia, ainda tenhamos de reservar uma parte do nosso tempo de vida útil para procurar refúgio na tristeza. mas ela é, sim, fundamental. desconhecê-la é suicídio. não teríamos como compreender a felicidade se não soubéssemos que gosto tem uma lágrima quando toca o canto dos lábios. não haveria forma de sentir a plenitude caso não tivéssemos convivido dias e noites com os monstros que habitam nosso vazio. não encontraríamos palavras pra descrever as pequenas e as grandes felicidades da vida se não tivéssemos provado dos infortúnios, não nos consideraríamos fortes se nunca tivéssemos fraquejado. é assim que nós, pessoinhas humanas, nos constituímos, nos transformamos, conhecendo os dois lados da moeda pra tudo.

ou seja, esse esforço para escrever de vez em quando algo muito triste e muito bonito ainda vale a pena.

3 Responses to “se a alma não for pequena.”

  1. Jana, a Avila March 5, 2009 at 10:51 am #

    Texto otimo… e sem tristeza, gata!😀

  2. Túlio March 5, 2009 at 12:36 pm #

    a tristeza e a fossa é uma grande fonte de inspiração. quantas maravilhas musicais, por exemplo, já não foram produzidas por resultado de uma tragédia alheia?

    além do mais, como vc disse, atrai audiência. senão as pessoas não desacelerariam o carro ao passar por um acidente

  3. Oksana March 5, 2009 at 1:46 pm #

    E digo mais: dá audiência e inspira também! Não só a tristeza como outros sentimentos da mesma classe cinzenta: mau humor, dor de cotovelo, ciúme, mágoa…
    Quando eu tô super numa boa, preciso ficar caçando assunto pra escrever, e os textos muitas vezes ficam meio bobos, sem sal.
    Certamente não é à toa que tanto poeta romântico morreu tuberculoso, sozinho e infeliz aos 22 anos de idade, hehehe.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: