o quintal do vizinho.

21 Jan

lá no aires buenos o túlio falou com propriedade sobre a sensação de não pertencer ao lugar onde estamos. seja na argentina, no brasil, nas arábias, na fazendinha, no batel ou num iglu num pólo norte qualquer, acho que a sensação de não-pertencimento surge em diversos momentos da vida. muda de nome e de endereço – e eu tendo a acreditar que viver em buenos aires deve ser mesmo irritante – mas, como ele mesmo conclui: o problema não é você, lugar, sou eu.

pois é assim, cíclico, de tempos em tempos eu sinto não pertencer a alguma coisa. como se houvesse sempre uma linha limítrofe, e quando a cruzo, preciso de uma linha nova, um desafio novo. a rotina que antes parecia normal passa a me consumir. acordar, levantar, escovar os dentes, ritual da beleza, iogurte com granola, notícias do dia, escovar os dentes de novo, vestir uma roupa, calçar os sapatos, fechar as janelas, girar a chave duas vezes na porta, andar 700 metros, passar 8h30min no escritório, voltar para casa. já sem energia alguma, tenho enfim as minhas horas de vida própria. o sono é sempre maior. o cansaço, o desgaste, a preguiça de falar/fazer/existir.

ligo a tevê. há repórteres da globo em washington, frio de -8. há repórteres da globo na faixa de gaza. há repórteres da globo na índia, aprendendo rituais e danças e comendo tudo com muita pimenta. há apresentadores da MTV trabalhando na praia, de biquíni, entre uma água de côco e outra. sinto vontade de ser qualquer coisa assim, simplinha. correspondente internacional. nem precisava aparecer na tevê com luvas de couro ou cachecóis; podia ficar ali nos bastidores. ao invés de me preocupar com a garoa insistente de curitiba, usar galochas para andar na neve. cafés no tortoni serão sempre mais charmosos do que no lucca! como sempre, qualquer vida parece mais glamourosa que a minha. o quintal do vizinho é sempre mais verde. o cachorro do vizinho não tem bafo nem faz cocô. o vizinho não tem contas a pagar, dor de barriga nem insônia. seu quintal é tão mais verde, sempre. ele sempre acha alguma coisa legal passando na tevê a cabo. até seus problemas parecem mais interessantes. os gatos do vizinho, veja só, não soltam pêlos. sua pia nunca tem louça suja. seu chefe não deve ser de todo mal e sua vida é absolutamente feliz. ah, o quintal do vizinho.

quintal_vizinho

|para dias melancólicos: ryan adams – my winding wheel|

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One Response to “o quintal do vizinho.”

  1. Túlio January 24, 2009 at 2:31 am #

    Saudade da Globo mesmo… menos do Faustão.

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