em fases turbulentas, como já diziam nossos avós, é que a gente aprende coisas importantes da vida. a velha conversinha de tirar algo de bom disso tudo. percebi por estes dias que eu sou uma pessoa cética. eu custo a acreditar em coisas não presenciais. só consigo acreditar naquilo que vi, que toquei ou que alguém muito próximo vivenciou. e isso serve pra tudo, guerras mundiais, crises econômicas, homem na lua (haha, como eu poderia estar lá, né?) e, claro, pandemias. a única coisa na qual eu acredito é na minha fé, algo muito pessoal e que não convém citar aqui.
fico observando as janelas à minha volta e me comovo somente com aquilo que é do meu mundo. o mundo de cada um é tão pequeno, e é só o que faz sentido. sua família, seus amigos, seu trabalho, sua casa, sua hora do banho, suas músicas e filmes, os livros que você lê pra pegar no sono. o mundo lá fora não se importa com nada disso. não vai parar de girar se você perder alguma dessas coisas. então por que é que a gente tem tanto medo desse mundo que, na prática, só existe na televisão, nas revistas de viagem e nos relatos de gente que mal conhecemos? por que choramos a morte do michael jackson se doloroso mesmo é perder um ente querido? por que tememos a gripe suína quando um câncer na família se constitui num problema real?
as pessoas andam pela rua apavoradas – hoje no caminho para o escritório cruzei com gente usando máscaras – enquanto eu custo a acreditar em tudo, seja nas estatísticas oficiais ou naqueles e-mails cheios de dados que entopem nossas caixas diariamente. custo a acreditar que a coisa tenha o tamanho que dizem ter: quantos de vocês conhecem alguém que foi afetado pela pandemia? custo a acreditar q a crise econômica mundial já dure um ano: onde foram parar todas as cédulas e moedas de um mundo onde o dinheiro simplesmente sumiu? custo a acreditar que agora, e somente agora, aconteçam tantos acidentes envolvendo aviões e barcos. o que eu vejo hoje – e nisso eu acredito, porque está dentro do meu mundo – é uma tela de tevê e uma de computador, absurdamente cheias de informações, notícias que se atualizam a cada segundo. e se nada disso existisse? e se nada disso existir? se o mundo for exatamente isso: você na sua casa oferecendo um jantar aos seus amigos, indo buscar seus filhos na escola e fazendo uma viagem de final de ano para conhecer outro pedaço de mundo que está logo ali? e se for isso e nada mais, qual o problema?
