você sabe por quê inventaram o trabalho? o trabalho na sua forma mais “conceitual” por assim dizer: o exercício de um ofício, seja qual for. o trabalho foi, muito provavelmente, a única forma encontrada para tirar o ser humano do seu estado natural – o selvagem, no caso.
imagine um mundo onde ninguém trabalha. todos tem tempo livre pra tudo. não há dinheiro, a vida funciona operada por escambo ou coisa que o valha. não existem regras, horários, agendas a cumprir. imaginou? como é? pois eu, quando penso nisso, tenho uma visão semelhante àquilo que se passa em filmes como “eu sou a lenda”: o mundo inteirinho destruído, habitado por criaturas selvagens que gostam de sair da toca no escuro.
eu observo (e a cada dia as pessoas me convencem mais disso) que a rotina, a soma do trabalho com as contas, as obrigações sociais, os almoços em família, a vida a dois, o nosso círculo social base… tudo isso dá muito mais do que sustento. o leite das crianças não é nada perto da sanidade mental que uma rotina proporciona. o dinheiro escorre pelo ralo na conta de água, some no escuro da conta de luz, mingua nos cartões de crédito. mantém o corpo limpo, os lençóis bem passados, a louça lavada, a geladeira cheia. mas é a rotina, em sua equação mais pura, ação X recompensa, dedicação X gratificação, tempo X dinheiro, que mantem a ALMA em dia.
quando uma parte da rotina – seja o trabalho, o amor ou a vida social – se torna um martírio, nos tornamos escravos da nossa própria insatisfação. voltamos, muitas vezes sem sutileza alguma, à nossa forma selvagem. nos indispomos com a vida, com o mundo. rangemos os dentes, deixamos as nossas garras afiadas saírem por baixo das unhas. ferimos e somos feridos.
tem remédio? tem. desapego, coragem, mudança, escolher o novo. largar a rotina velha, aquela que vinha nos tornando selvagens, fazer alguma coisa por si mesmo. como se fosse fácil. como se um texto, um e-mail, um “jogar tudo pro alto” mudasse a vida da noite pro dia e resolvesse todos os nossos conflitos internos.
mas dá pra começar aos poucos. dá sim e eu acredito nisso. se você não pode largar o curso de mandarim antes de terminar, se não consegue mudar de emprego neste momento, se não tem dinheiro pra conhecer a conchinchina este ano… não tem problema. há muitos outros prazeres no mundo. muitas outras pessoas pra conhecer, se relacionar, aprender. mas é preciso deixar o lado selvagem pra trás… atuar como um lança-chamas ambulante, queimando aos outros antes de si mesmo, certamente não vai nos atrair boas coisas.
suerte!

