Daqui até a eternidade…

16 Feb

O gancho vem daqui – amor tem de sobra, o que falta é gente qualificada pra receber. O que te qualifica pra receber? Aí depende. É subjetivo demais, emocional demais, inexplicável demais.

Na mesa ao lado, três casais jantavam juntos. A loira de cabelos nos ombros e voz estridente reclamava do namorado, na frente dele e de todos os amigos. Que ele chegou cedo demais para buscá-la. Que no outro dia, atrasou meia hora. Que aos domingos, dorme até o meio-dia. Que deuzolivre se ele acha que depois de casar vai continuar dormindo assim – já pensou?

Não. Não pensei. A única coisa que pensei foi “por quê raios vocês vão casar se ele é tão ruim assim?”. Ruim é ela, pensei em seguida, enquanto escolhia a sobremesa. Entre uma grosseria e outra, vem a pérola: “mais uma cerveja? Você não acha que tá bebendo demais?”. A loira, chata que só, alfinetava o noivo enquanto o garçom, plantado à beira da mesa, ostentava um sorriso pra lá de amarelo.

Discutir na frente dos outros é isso: sorriso amarelo. Desdenhar da pessoa “amada” na frente dos outros é péssimo – hipocrisia, aliás, chamar de “pessoa amada” alguém que você só destrata. O mundo tá cheio de gente querendo ter alguém pra tratar bem. É bom ficar atento.

Olhei, tentando disfarçar, enquanto eles discutiam quantas cervejas já tinham ido goela abaixo. O sorriso amarelo do garçom era compartilhado pelas outras pessoas que jantavam com eles.

Abre parênteses; mas não muito.

Minha vó sempre dizia que roupa suja se lava em casa. Do alto de sua caretice, tinha razão em muitas coisas; essa era uma delas. Foi casada com meu avô por 64 anos, nos últimos 10 ele esteve doente. Ficou cada vez mais doente, foi perdendo as forças, a fala, os movimentos, foi esquecendo de tudo. Até dela ele esqueceu. Mesmo assim ela nunca saiu dali. Quando perguntavam pra ela como ele estava, era enfática: “está ótimo. Está melhorando cada vez mais”. Uma mentira deslavada – meu vô tinha Alzheimer, só piorava, não sabia quem era ela e nunca ia ficar bom. Mas minha vó guardava essa parte ruim e difícil da vida a dois a sete chaves, dentro de casa.

Fecha parênteses.

Guardadas as devidas proporções, é nisso que eu acredito. Que as relações duradouras são aquelas em que os problemas são discutidos, divididos e resolvidos dentro de casa. Depois que a gente escolhe e é escolhida, tem que dividir muito mais do que a cama, uma garrafa de vinho e o tubo de pasta de dentes. Tem que dividir dias ruins, dias frios, dias cansativos, problemas. Tem que multiplicar paciência, tem que respirar fundo. Tem que ponderar. Mas não tem que contar nada disso pro mundo não. Não tem nada mais feio, deselegante e sorrisoamarelante do que um casal fazendo picuinha em público. Não importa se é o cara que zoa a namorada ou se é a namorada que enche a paciência: é uma bomba de efeito moral pra quem está perto.

Porque o amor, esse bichinho danado que a gente tanto quer pra vida, tem mesmo que ser regado, cultivado, pra durar pelo menos 64 anos. Não adianta amar no Facebook, botar foto com filtro tirada em Veneza, música romântica como legenda. Tem que ser de verdade, de carne e osso.  Tem que ter orgulho de quem ama. E ser motivo de orgulho também.

A velha história de deixar o lado bom pesar mais na balança, sabe? Porque daqui a 64 anos, quando você estiver doente numa cama, acredite: só tem uma pessoa no mundo que vai cuidar de você até o fim. Não serão seus pais, nem seus irmãos, nem seus filhos. Vai ser esse cara aí, que bebe muita cerveja, se atrasa sempre e só acorda depois do meio-dia.

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Analogias

10 Feb

Minha diarista tem um hábito que considero bem ruim para as relações. Ela retruca.

Funciona mais ou menos assim:

- Fulana, precisa limpar essa parede aqui, ó, tá manchada.

- Mas eu limpei na semana passada, vou ter que limpar de novo!

Não sou burra nem nada. E nem que fosse, a lógica é simples: quando ela esfrega as paredes, elas ficam limpas. Quando não esfrega, ficam sujas e eu preciso refazer o pedido.

Mas o que me incomoda de verdade não são as paredes sujas, afinal não falta água nem esponja neste mundo. Eu mesma posso cuidar disso. O que me incomoda é essa coisa de ter sempre uma resposta na ponta da língua. A pessoa não te ouve. Não pondera. Não respira nem pensa dois minutos. Acha que tá certa e ponto. Te retruca – e como a resposta já está ali, pronta pra sair, ela não vem com filtro. Muito menos com diplomacia.

Mas tudo bem… eu sei que tô exigindo demais. É só uma diarista.

( emurphy.tumblr.com)

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Samba no dos outros é refresco

6 Feb

Eu não gosto de Carnaval. Gostava quando era mais nova, quando era possível frequentar qualquer “multidão” sem me sentir acuada. Mas isso foi há uns 15 anos. Fujo de qualquer multidão – e aí não é porque sou curitibana. É porque tenho medo. De ser assaltada, de ser pisoteada, de ser sufocada, de levar bala de borracha, tenho medo até daqueles marmanjos metidos a besta que chegam pegando na cintura da gente.

Meu consolo sempre foi morar numa cidade que não é de Carnaval. Deixa o Carnaval pro Rio, pra Bahia, pra Minas; Curitiba é o lugar de quem quer fugir da zoeira. Porque é uma cidade fria (embora não aparente nos últimos dias), porque não tem sambódromo e muito menos samba no pé. Nunca ninguém parou pra pensar por que essas coisas não combinam com a cidade? Curitibano não é festeiro. Pensa que é. Mas não sabe ser (assim como não sabe ser educado – e uma coisa leva à outra…).

Não tô falando de você que combinou de ir pular Carnaval com as amigas. Nem das famílias que enfrentaram o sol escaldante do domingo para ver a ‘manifestação artística’ no Largo da Ordem. Tô falando da massa, que, mais dia menos dia, é atraída para todo e qualquer evento público. Daquele monte de gente sem cultura, sem educação, que acha que festar é poder andar bêbado pela rua, vomitando pelos cantos, quebrando tudo e mexendo com a mulher do outro. O mesmo tipo de gente que invade o litoral no réveillon e nos obriga a escutar as piores músicas em volumes absurdos. Gente que acha que festa = bagunça. E isso não é puritanismo, vocês sabem que não é. Tudo que tem muita gente junta, de culturas diferentes, de níveis alcoólicos diferentes, de objetivos diferentes, dá merda em algum momento. Não é culpa das famílias, nem da polícia, nem dos “foliões de bem”. É uma questão cultural, difícil de explicar, de entender e impossível de conter. Deviam deixar o Carnaval pra quem entende do assunto.

Bom dia pra você também

3 Feb

Gosto muito desse texto da Denise, que descreve de forma bem clara e sucinta uma das piores manias do curitibano. É assim mesmo: a gente foge, se esconde, espera o próximo elevador; tudo para não ter que abrir a boca e dizer bom dia, boa tarde, boa noite. Um estranho valor (se é que dá pra chamar de “valor” um hábito assim) tão fincado na nossa essência que fica difícil tirar de dentro do peito.

Tô tentando. Tô me esforçando. Cumprimento o caixa do supermercado. Agradeço antes de catar as compras e ir embora. Olho pra cara de quem está me atendendo na farmácia, no café, na loja, no restaurante. Às vezes esqueço. Digo “obrigada” com a boca semi cerrada, olhando pra carteira, louca pra sair dali. Como se alguém estivesse me torturando. É difícil tirar essa sensação de invasão, confesso. Como se o fato de olhar alguém nos olhos fosse uma intimidade tão grande, tão grande que… melhor não. Melhor baixar a cabeça e ir embora, atravessar a rua, como se óculos escuros e iPod fossem capas de invisibilidade.

E na internet então? Milhares de formas de se comunicar, mas só se você quiser. (Percebem a minha grande crise com tudo isso? Cada texto tem um porém). Assim como a gente finge que não viu a fulana do outro lado da rua, também pode fingir que não leu um email.  Do mesmo jeito que a gente não cumprimenta a moça do caixa, que a gente sai de qualquer lugar sem dizer nada, dá pra ficar offline no meio de uma conversa. Fingir que caiu, que não leu, que não deu tempo, que esqueceu. Eu não quero ser assim. Quero fazer o mínimo. Quero dar bom dia, boa tarde, boa noite, oi e tchau. Quero ser à moda antiga – sim, eu acho que os curitibanos eram mais educados. A gente sabia ser, só desaprendeu.

imagem do fuck yeah moleskines

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Do lado de lá

25 Jan

Nunca esqueço quando uma amiga disse: ‘internet me deixa ansiosa’. Foi tão sintético e simples e verdadeiro e real, mas nunca tinha parado pra pensar. Internet me deixou ansiosa também.  A vida indo pelo ralo, uma sensação estranha de que todas as pessoas que ali estão, estão ali – e portanto, assim como eu, estão deixando de lado outras coisas. Não estão onde deveriam estar. E tem algum lugar onde a gente deveria estar? Onde é que a vida acontece? Só sei que no computador é que não é. Nada verdadeiramente importante acontece dentro do computador.

O primeiro olhar que você troca com alguém. O primeiro sorriso, o primeiro beijo, a primeira vez que acordam juntos. O dia em que ele te apresentou como namorada pela primeira vez. O jeito que ele segura a tua mão na hora de atravessar a rua. A risada que ela dá e te tira o ar. O jeito que ela pisca. Aquele momento em que a luz do cinema acende e vocês precisam levantar e sair dali, e você não sabe se agora é a hora de beijar ou se espera até o café.  Andar de mãos dadas. O sorriso que você dá quando lembra dele. O coração saindo do peito quando o avião dela pousa. A felicidade incontrolável quando você ouve uma música que lembra ele. O cheirinho que fica na casa quando ele cozinha para você. Os pés dela, tão bonitos.

Nada disso está dentro do computador.

As pessoas passam o dia todo olhando pra ele – por necessidade, um pouco; por ansiedade um outro tanto. De lá pode sair tudo, um monte de informação, foto, uma mensagem que você estava esperando. Mas a vida boa, aquela que todo mundo quer, não está no computador.  Está do lado de fora, nos convites recusados, nos amigos esquecidos, nos livros acumulados na estante, nos filmes que você não viu. Nas pessoas que você deixou pra trás e naquelas que você não conheceu ainda. A vida boa, aquela que todo mundo quer, acontece quando você deixa ela entrar. Simples assim. E tão complicado.

(Imagem: http://sniffingpermanentmarkers.tumblr.com/)

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A nuvenzinha cinza do mundo

24 Jan

Se você não é feliz provavelmente a culpa é sua.

Logo eu, que sempre achei um saco pessoas que estão sempre felizes, me rendo. Eu quero ser feliz também. Não o tempo todo, mas a maior parte dele… é possível? É sim. É só parar de ver a nuvem cinza do mundo. Chega de criticar tudo e todos o tempo todo. O mundo já é tão crítico, ranzinza, rabugento, cruel. Não vou engrossar o coro, não quero fazer parte dessa massa. Não vejo mais graça alguma em ser o personagem rabugentinho de todas as histórias. Eu vou me esforçar. Não vou criticar, não vou reclamar. Não, não e não.

Mas o mundo já é tão crítico – devo me mudar pra uma ilha? As pessoas criticam tudo. O que você se veste, o jeito que você dirige, as coisas que você fala, o jeito que você come, o jeito que você senta, o modo como segura o garfo. As pessoas criticam se você demora 4 segundos pra arrancar com o carro no semáforo aberto. Dentro dos próprios carros, reclamam baixinho – às vezes nem tão baixinho. Em pensamento, criticam cada palavra que você fala se o assunto não interessa. Às vezes, criticam se o assunto interessa também. As pessoas reclamam do trânsito, das filas, do calor, do frio, do trabalho, da falta dele, do chefe, do estagiário, do esmalte que descasca, da comida que demorou, do tempero que estava ruim, do filme que era chato, do fulano que só fala sobre moto.  Sem perceber, são as maiores responsáveis pela desordem de emoções que isso tudo virou.  E se antes era só reclamar, dar um xingo e passar pra próxima, agora veja que sensacional: dá pra registrar todas as reclamações na internet, em apenas 140 caracteres. As reclamações proliferam, uma grande nuvem cinza domina o mundo. Reclamam do calor, do atendimento no guichê do banco, da fila pra recadastrar o título de eleitor, do pneu do carro que furou, do salto do sapato que quebrou, do chuveiro elétrico que queimou, da empregada que faltou. Da história que o fulano contou.

Reclamam, reclamam, reclamam. Reclamam até que falta amor. Amor tem de sobra – o que falta é gente qualificada pra receber.

Tá precisando se inspirar pra ser menos rabugento? Vem aqui.

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Teresa Cristina feelings

19 Jan


Não acho que o mundo vai acabar em 2012. Mas muitas pessoas vão. Ódio no coração, gente, só leva a duas coisas: solidão e gangrena. Tem gente que tem odiozinho por tudo, por bobeiras de internet, por big brother, por fila de mercado, por coisas que os outros fazem, por discussões que nem lhe dizem respeito. Meu mantra este ano: não odeio quase nada (exceto os eternos champignon e azeitona). Apenas evito. Dá pra evitar tudo nessa vida gente, de filho a programa ruim de televisão. Desliga a tevê, troca o canal, muda de rotina, sai dessa porra desse celular.

“Em bom português: não gosta? Ignore, em vez de ficar criticando. Isso não significa que “é feio criticar”.

” Somos mais ricos em tempo do que em dinheiro. Por isso tendemos a gastar mal essa moeda.”

Recomendo a leitura desse texto aqui (obrigada, Andreia). Não é bem sobre ódio, mas comece a pensar nisso. Em ser uma pessoa que odeia menos – e assim, tornar-se menos odiável também. Na novela pode ser engraçado, mas todo mundo sabe que o ódio da Teresa Cristina vai fazê-la se ferrar muito no final.

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